Fotossíntese: entenda a fase clara e a fase escura

Detalhe de uma folha verde onde ocorrem os processos essenciais da fotossíntese vegetal (Getty images)

A fotossíntese é um dos processos biológicos mais importantes para a manutenção da vida na Terra. Por meio dela, plantas, algas e determinadas bactérias conseguem transformar energia luminosa em energia química, utilizando essa energia para produzir compostos orgânicos a partir de substâncias inorgânicas.

Esse processo é tradicionalmente dividido em duas etapas: fase clara e fase escura. Embora estejam relacionadas, elas apresentam funções diferentes. Enquanto a primeira utiliza diretamente a luz para produzir moléculas energéticas e liberar oxigênio, a segunda emprega parte dessa energia para incorporar o carbono do dióxido de carbono (CO₂) na formação de moléculas orgânicas.

Compreender essas etapas ajuda a entender como as plantas crescem, como a matéria orgânica é produzida nos ecossistemas e por que a fotossíntese é fundamental para a vida.

O que é a fotossíntese e onde ela acontece?

Nas plantas, a fotossíntese ocorre principalmente nas folhas, em estruturas celulares chamadas cloroplastos. Essas organelas contêm clorofila e outros pigmentos capazes de absorver determinados comprimentos de onda da luz.

Dentro dos cloroplastos existem membranas chamadas tilacoides, organizadas em estruturas que podem formar pilhas conhecidas como grana. O espaço interno dessas membranas é chamado lúmen tilacoidal, enquanto o fluido que envolve os tilacoides recebe o nome de estroma.

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Essa organização é essencial porque as duas etapas da fotossíntese acontecem em regiões diferentes do cloroplasto.

De maneira simplificada, o processo utiliza água, dióxido de carbono e energia luminosa para produzir carboidratos, liberando oxigênio. Entretanto, a formação de açúcares envolve várias reações bioquímicas, e não uma transformação direta e instantânea dessas substâncias.

Fase clara da fotossíntese: como a luz é transformada em energia química?

A fase clara, também conhecida como etapa fotoquímica, ocorre nas membranas dos tilacoides e depende diretamente da luz.

Nessa etapa, os pigmentos fotossintéticos absorvem a energia luminosa. Essa energia excita elétrons presentes nos complexos proteicos chamados fotossistemas, iniciando uma sequência de transferências eletrônicas.

O fotossistema II participa do processo de quebra da água, conhecido como fotólise. Essa reação fornece elétrons para substituir aqueles que foram transferidos, libera prótons e produz oxigênio molecular.

Portanto, o oxigênio liberado durante a fotossíntese das plantas tem origem na água, e não no dióxido de carbono.

Os elétrons percorrem uma cadeia transportadora, contribuindo para a formação de um gradiente de prótons através da membrana tilacoidal. Quando esses prótons retornam por meio da enzima ATP sintase, a energia liberada permite a produção de ATP, uma molécula utilizada como fonte de energia em diversas reações celulares.

Posteriormente, o fotossistema I participa de outras transferências de elétrons, que permitem a redução de NADP⁺ e a formação de NADPH.

Ao final da fase clara, a célula dispõe de ATP e NADPH, que serão utilizados na etapa seguinte da fotossíntese.

Fase escura da fotossíntese: como o CO₂ é transformado em matéria orgânica?

Esquema ilustrando os elementos essenciais e o processo de fotossíntese nas plantas.

A fase escura ocorre no estroma dos cloroplastos e corresponde, principalmente, ao ciclo de Calvin-Benson. Apesar do nome, isso não significa que as reações aconteçam exclusivamente durante a noite.

Essa etapa não utiliza fótons diretamente para executar suas reações principais, mas depende do ATP e do NADPH produzidos na fase clara. Nas plantas, o funcionamento integrado das duas etapas normalmente acontece durante o período iluminado.

O ciclo de Calvin começa com a fixação do dióxido de carbono. Uma enzima chamada RuBisCO catalisa a incorporação do CO₂ à ribulose-1,5-bisfosfato (RuBP), formando compostos que dão origem a moléculas de três carbonos.

Em seguida, essas moléculas passam por reações que consomem ATP e NADPH, produzindo gliceraldeído-3-fosfato (G3P), um composto utilizado na síntese de carboidratos e de outras substâncias orgânicas.

Parte do G3P pode contribuir para a formação de açúcares, enquanto outra parte é utilizada na regeneração da RuBP. Essa regeneração permite que o ciclo continue incorporando novas moléculas de CO₂.

Assim, a fase escura transforma o carbono inorgânico em compostos orgânicos, utilizando a energia química disponibilizada pela etapa fotoquímica.

Qual é a diferença entre fase clara e fase escura?

Embora sejam complementares, as duas etapas apresentam diferenças importantes. Na fase clara, a luz é indispensável para impulsionar o transporte de elétrons, a produção de ATP e a formação de NADPH. Além disso, a quebra da água libera oxigênio.

Na fase escura, o ciclo de Calvin utiliza ATP e NADPH para fixar o CO₂ e produzir compostos orgânicos. Essa etapa ocorre no estroma dos cloroplastos e não depende diretamente da absorção de luz em suas reações centrais.

É importante lembrar que a fase escura não é sinônimo de fotossíntese noturna. Na ausência de luz, a produção de ATP e NADPH pela fase clara diminui ou cessa, e o funcionamento do ciclo de Calvin acaba sendo limitado por mudanças no fornecimento de energia e na regulação enzimática.

Estudo de 2026 revela uma possibilidade inesperada na fotossíntese

Uma pesquisa publicada em 10 de julho de 2026 na revista científica Nature Communications, liderada por Marta Ludwiczak, investigou a fotossíntese em cianobactérias e revelou uma capacidade inesperada desse processo.

No estudo Photosystem I-independent oxygenic photosynthesis in cyanobacteria, os pesquisadores demonstraram que linhagens modificadas da cianobactéria Synechocystis conseguiram realizar fotossíntese com liberação de oxigênio mesmo sem o fotossistema I, considerado essencial para a fotossíntese oxigênica convencional.

Os resultados indicaram que adaptações genéticas e alterações no transporte de elétrons permitiram reorganizar o funcionamento do sistema fotossintético. As linhagens também conseguiram crescer utilizando luz e fixar carbono inorgânico.

A descoberta não significa que as plantas normalmente dispensem o fotossistema I. Em vez disso, mostra que determinados organismos podem desenvolver rotas alternativas para sustentar funções fotossintéticas em condições específicas.

O trabalho amplia a compreensão sobre a flexibilidade dos mecanismos que conectam as reações fotoquímicas à fixação do carbono.

Por que as duas etapas são essenciais para a vida?

A fase clara e a fase escura atuam de maneira integrada. Sem a produção de ATP e NADPH, a fixação eficiente do carbono fica comprometida. Por outro lado, a incorporação do CO₂ permite transformar a energia capturada pela fotossíntese em matéria orgânica que pode ser utilizada no crescimento das plantas e em outras funções metabólicas.

Além de sustentar a produção primária dos ecossistemas, a fotossíntese contribui para a manutenção do oxigênio atmosférico e participa do ciclo global do carbono.

Por isso, compreender a fotossíntese, a fase clara e a fase escura é fundamental para entender como a energia solar sustenta grande parte das cadeias alimentares e como os organismos fotossintetizantes influenciam o equilíbrio dos ecossistemas terrestres e aquáticos.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes