Cientistas descobrem molécula de RNA que ajuda células do câncer de próstata a resistirem ao tratamento

Algumas células tumorais desenvolvem mecanismos de resistência aos medicamentos. (Imagem: Fala Ciência)

O câncer de próstata pode encontrar maneiras de escapar até mesmo de tratamentos desenvolvidos para bloquear seu crescimento. Uma das estratégias mais desafiadoras ocorre quando as células tumorais mudam suas características biológicas e passam a depender de mecanismos diferentes para sobreviver. Nesse processo, uma pequena molécula de RNA pode ter um papel importante.

Pesquisadores identificaram um tipo específico de RNA transportador (tRNA) que ajuda a regular a identidade das células do câncer de próstata e sua resposta aos tratamentos. A descoberta oferece novas pistas sobre como alguns tumores desenvolvem resistência às terapias hormonais e abre caminhos para investigar estratégias capazes de recuperar a sensibilidade das células cancerosas aos medicamentos.

O achado é relevante porque a resistência terapêutica continua sendo um dos grandes obstáculos no tratamento de tumores avançados. Entretanto, é importante esclarecer que a pesquisa ainda não representa um novo tratamento disponível para pacientes.

Uma pequena molécula pode influenciar o comportamento do tumor

O RNA é conhecido principalmente por sua participação na utilização das informações genéticas pelas células. Entre seus diferentes tipos, o RNA transportador, ou tRNA, desempenha uma função essencial na produção de proteínas, levando os aminoácidos necessários para a montagem dessas moléculas.

No estudo, os cientistas identificaram uma forma específica chamada tRNA¹Arg (UCU), relacionada ao aminoácido arginina. Os resultados indicaram que ela não atua apenas na produção de proteínas: também participa de mecanismos que ajudam a determinar as características que uma célula tumoral mantém.

Gostou dessa notícia?

Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!

Entrar no Canal do WhatsApp

Esse aspecto é importante porque as células cancerosas não são necessariamente estáticas. Sob pressão do tratamento, algumas conseguem alterar seu funcionamento e assumir características diferentes, o que pode dificultar o controle da doença.

Esse fenômeno é conhecido como plasticidade de linhagem celular. Em determinadas circunstâncias, ele permite que células tumorais deixem de depender dos mecanismos que os medicamentos foram desenvolvidos para bloquear.

Como o câncer consegue escapar dos medicamentos hormonais

Entenda como o tRNA ajuda a combater a resistência do câncer. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Muitos tratamentos contra o câncer de próstata atuam sobre o receptor de andrógeno, uma proteína que responde a hormônios masculinos, como a testosterona, e pode estimular o crescimento das células tumorais.

O problema surge quando parte do tumor modifica sua identidade biológica e passa a depender menos dessa via. Dessa maneira, terapias que antes controlavam a doença podem perder eficácia.

A pesquisa mostrou que o tRNA identificado participa da regulação desse processo. Em experimentos, os pesquisadores conseguiram modificar a dependência das células em relação à sua linhagem celular, incluindo a possibilidade de recuperar a sensibilidade a tratamentos direcionados ao receptor de andrógeno.

Além disso, a molécula influencia um programa de produção de proteínas associado ao complexo SWI/SNF, envolvido na organização da cromatina, estrutura que ajuda a controlar o acesso às informações do DNA.

Na prática, esses mecanismos sugerem que a resistência ao tratamento não depende apenas de alterações nos alvos dos medicamentos. Ela também pode envolver mudanças mais amplas na maneira como as células tumorais regulam seus genes e produzem proteínas.

A perda do RNA apareceu associada a tumores mais agressivos

Publicado em 7 de outubro de 2026, na revista científica Nature, o estudo liderado por Yeon Soo Kim investigou a função desse RNA transportador no câncer de próstata. 

Ao analisar dados relacionados a pacientes, os pesquisadores observaram que a expressão do tRNA¹Arg (UCU) estava reduzida no câncer de próstata neuroendócrino, uma forma agressiva da doença que pode apresentar características biológicas diferentes das encontradas nos tumores mais comuns.

A perda dessa molécula também apareceu associada à progressão mais rápida das metástases e a uma menor sobrevida.

Esses resultados são relevantes porque ajudam a relacionar os mecanismos observados nos experimentos com características clínicas da doença. No entanto, uma associação com menor sobrevida não significa que a redução do RNA seja, por si só, responsável por esse desfecho.

Veja mais:

Descoberta abre caminho para investigar novas estratégias

A identificação desse mecanismo pode contribuir para o desenvolvimento futuro de abordagens que busquem impedir mudanças celulares associadas à resistência terapêutica.

Uma possibilidade investigada pelos resultados é encontrar maneiras de interferir nessa regulação molecular para tornar determinados tumores novamente vulneráveis às terapias hormonais.

Ainda assim, são necessários novos estudos para determinar como esse conhecimento poderia ser aplicado com segurança e eficácia em pacientes. A descoberta não significa que já exista um medicamento capaz de corrigir a atividade desse RNA na prática clínica.

O principal avanço é mostrar que moléculas envolvidas na produção de proteínas também podem influenciar a identidade e a capacidade de adaptação das células cancerosas. Compreender esse mecanismo pode ajudar a explicar por que alguns tumores resistem ao tratamento e orientar pesquisas em busca de alternativas para casos mais difíceis de controlar.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes