A relação entre atividade física e melhora da memória já é conhecida. No entanto, cientistas agora identificaram um mecanismo biológico específico que ajuda a explicar por que o exercício pode proteger o cérebro contra o Alzheimer e o declínio cognitivo associado ao envelhecimento.
O achado foi descrito no estudo Liver exerkine reverses aging- and Alzheimer’s-related memory loss via vasculature, publicado em 2026 na revista Cell, sob liderança de Gregor Bieri (DOI: 10.1016/j.cell.2026.01.024).
A barreira que protege o cérebro enfraquece com a idade
O cérebro possui um sistema de proteção chamado barreira hematoencefálica. Essa estrutura funciona como um filtro, impedindo que substâncias potencialmente tóxicas presentes no sangue alcancem o tecido cerebral.
Com o avanço da idade, essa barreira tende a se tornar mais permeável. Consequentemente, moléculas inflamatórias podem atravessá-la com maior facilidade, favorecendo inflamação cerebral, perda de memória e maior vulnerabilidade a doenças neurodegenerativas.
É justamente nesse ponto que o exercício parece exercer um papel decisivo.
O papel do fígado na proteção cerebral
Pesquisas anteriores já haviam mostrado que a prática regular de exercícios aumenta, no fígado, a produção de uma enzima chamada GPLD1. No entanto, havia uma dúvida importante: essa enzima não atravessa a barreira hematoencefálica. Então, como poderia beneficiar o cérebro?
A nova investigação esclareceu essa questão. A GPLD1 atua sobre uma proteína chamada TNAP, que se acumula nas células da barreira hematoencefálica com o envelhecimento.
Esse acúmulo contribui para:
• Maior permeabilidade da barreira
• Entrada de compostos inflamatórios no cérebro
• Comprometimento da memória
Quando o exercício aumenta os níveis de GPLD1 na circulação, a enzima remove a TNAP da superfície dessas células, ajudando a restaurar a integridade da barreira cerebral.
Evidências experimentais reforçam o mecanismo
Os pesquisadores observaram que animais jovens com excesso de TNAP desenvolveram déficits cognitivos semelhantes aos vistos em indivíduos mais velhos. Por outro lado, quando os níveis de TNAP foram reduzidos em animais idosos, houve:
• Diminuição da inflamação cerebral
• Redução da permeabilidade vascular
• Melhora significativa no desempenho em testes de memória
Esses resultados indicam que o exercício não atua apenas nos neurônios, mas também na vasculatura cerebral, reforçando as defesas naturais do cérebro.
Implicações para Alzheimer e envelhecimento saudável
O estudo publicado na Cell amplia a compreensão sobre como o corpo e o cérebro estão interligados. Em vez de focar exclusivamente nas placas amiloides ou em alterações neuronais, a pesquisa destaca a importância da saúde vascular e da integridade da barreira hematoencefálica.
Além disso, os achados sugerem que estratégias terapêuticas capazes de modular proteínas como a TNAP podem, no futuro, contribuir para reduzir o risco ou retardar a progressão do Alzheimer.
A prática regular de exercício físico pode desencadear uma cascata de eventos biológicos que fortalecem a barreira hematoencefálica e reduzem a inflamação cerebral. Ao estimular a produção de GPLD1 no fígado, o organismo ativa um mecanismo indireto de proteção contra o declínio cognitivo.
Assim, manter-se ativo pode ser uma das estratégias mais acessíveis e eficazes para promover envelhecimento saudável e proteger a memória ao longo da vida.

