Exame cerebral pode revelar o antidepressivo certo antes do tratamento; diz estudo

Exames cerebrais ajudam a prever resposta ao tratamento da depressão. (Foto: Handmadefont via Canva)
Exames cerebrais ajudam a prever resposta ao tratamento da depressão. (Foto: Handmadefont via Canva)

A depressão segue sendo um dos maiores desafios da saúde pública mundial. Apesar da ampla oferta de medicamentos, o tratamento ainda depende, em grande parte, de tentativas sucessivas até encontrar uma opção eficaz. No entanto, uma nova pesquisa sugere que exames cerebrais podem ajudar a antecipar qual tratamento tem mais chances de funcionar, abrindo caminho para uma abordagem mais precisa e personalizada.

O estudo, publicado na revista científica General Psychiatry, comparou um medicamento da medicina tradicional chinesa, a Pílula Yueju, com o antidepressivo convencional escitalopram.

A pesquisa foi conduzida por Yuxuan Zhang e colaboradores, e investigou não apenas a melhora dos sintomas, mas também mudanças biológicas e estruturais no cérebro.

Dois tratamentos, respostas semelhantes e efeitos biológicos distintos

O ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo envolveu 28 pacientes com depressão. Os participantes receberam, por semanas, ou a Pílula Yueju ou o escitalopram, sempre acompanhados de placebos para manter o controle do estudo.

Os resultados clínicos mostraram que ambos os tratamentos reduziram os sintomas da depressão, segundo a Escala de Depressão de Hamilton. No entanto, quando os pesquisadores analisaram marcadores biológicos, surgiu uma diferença relevante.

Somente os pacientes tratados com a Pílula Yueju apresentaram aumento significativo do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), uma proteína essencial para:

  • Plasticidade neural
  • Conectividade entre neurônios
  • Regulação do humo

Níveis reduzidos de BDNF são frequentemente associados a quadros depressivos, o que torna esse achado especialmente relevante.

O papel surpreendente das redes cerebrais

Estudo associa redes cerebrais à melhora dos sintomas depressivos. (Foto: Magenta via Canva)
Estudo associa redes cerebrais à melhora dos sintomas depressivos. (Foto: Magenta via Canva)

Além das análises sanguíneas, os pesquisadores utilizaram ressonância magnética cerebral para mapear padrões estruturais do cérebro. Esses exames revelaram que redes neurais específicas conseguiam prever a intensidade da melhora dos sintomas, independentemente do tratamento.

Mais interessante ainda foi a identificação de padrões que prediziam resposta apenas à Pílula Yueju. Essas assinaturas cerebrais estavam relacionadas à:

  • Espessura cortical
  • Profundidade dos sulcos cerebrais
  • Organização da rede visual do cérebro

A rede visual mostrou forte associação tanto com a melhora clínica quanto com o aumento dos níveis de BDNF, sugerindo um papel inesperado dessa região no tratamento da depressão.

Um passo real rumo à medicina personalizada

Os achados indicam que exames de imagem cerebral podem deixar de ser apenas ferramentas diagnósticas e passar a orientar decisões terapêuticas. Em vez de depender apenas de sintomas e histórico clínico, médicos poderiam utilizar marcadores estruturais do cérebro para escolher o tratamento mais adequado desde o início.

Embora se trate de um estudo piloto, os resultados reforçam o potencial da integração entre medicina tradicional, biomarcadores modernos e neuroimagem avançada

Caso essa abordagem seja confirmada em estudos maiores, ela poderá reduzir atrasos no tratamento, minimizar efeitos adversos e aumentar significativamente as chances de recuperação em pacientes com depressão maior.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.