Estrela parecida com o Sol pode ter devorado um planeta e deixado pistas incríveis

Excesso de lítio indica que estrela semelhante ao Sol pode ter devorado um planeta. (Imagem: NASA, ESA, CSA, Ralf Crawford (STScI))

O Universo guarda eventos tão extremos que desafiam nossa imaginação. Um deles acaba de ganhar novas evidências: astrônomos identificaram sinais de que uma estrela semelhante ao Sol pode ter engolido um de seus próprios planetas. Embora o suposto desaparecimento tenha ocorrido há muito tempo, a estrela preservou uma espécie de “impressão digital química” que permitiu aos pesquisadores reconstruir parte dessa história cósmica.

O estudo foi publicado na revista The Astrophysical Journal por Brooke Kotten e colaboradores, em 2026. A pesquisa analisou a estrela TOI-5882, localizada a aproximadamente 1.300 anos-luz da Terra, e encontrou uma concentração incomum de lítio, um elemento químico que pode revelar episódios de engolfamento planetário.

O lítio entregou um antigo banquete cósmico

As estrelas produzem e transformam diversos elementos químicos durante sua evolução. No entanto, o lítio costuma existir em quantidades relativamente pequenas na atmosfera de estrelas semelhantes ao Sol.

Já os planetas rochosos e gigantes ricos em material sólido apresentam concentrações muito maiores desse elemento.

Ao analisar a luz emitida por TOI-5882 por meio da técnica de espectroscopia, os pesquisadores descobriram uma quantidade excepcionalmente elevada de lítio. Essa composição foge completamente do padrão esperado para estrelas com idade, temperatura e massa semelhantes.

Segundo os cálculos, a explicação mais plausível é que a estrela tenha incorporado material proveniente de um planeta destruído.

Como uma estrela pode engolir um planeta?

Embora pareça um evento raro, o chamado engolfamento planetário faz parte da evolução de muitos sistemas estelares.

Normalmente, isso acontece quando a órbita de um planeta se torna instável. Aos poucos, ele perde energia, aproxima-se da estrela e acaba sendo completamente destruído.

No caso de TOI-5882, os pesquisadores acreditam que esse processo pode não ter ocorrido de forma espontânea.

Um dos principais suspeitos é uma anã marrom, objeto que possui mais de vinte vezes a massa de Júpiter, mas insuficiente para iniciar reações nucleares e se tornar uma estrela. Sua intensa influência gravitacional pode ter alterado a órbita do planeta, lançando-o em direção à estrela.

Uma investigação baseada em pistas químicas

Como esses eventos acontecem rapidamente em escalas astronômicas, dificilmente são observados em tempo real.

Por isso, os cientistas atuam como verdadeiros investigadores, procurando sinais deixados após o desaparecimento do planeta.

Para confirmar que o excesso de lítio não era apenas uma característica natural da estrela, a equipe comparou TOI-5882 com 62 estrelas semelhantes.

Os resultados mostraram que ela pertence ao grupo das mais enriquecidas em lítio, superando pelo menos 97% das estrelas analisadas. Essa diferença tornou a hipótese do engolfamento muito mais consistente.

O que essa descoberta revela sobre o futuro do Sistema Solar?

Além de explicar a história de TOI-5882, o estudo também oferece pistas sobre o destino de outros sistemas planetários.

Daqui a cerca de 5 bilhões de anos, o Sol entrará na fase de gigante vermelha. Durante esse processo, sua expansão poderá engolir Mercúrio, Vênus e possivelmente até a Terra.

Compreender como esses eventos deixam marcas químicas ajuda os astrônomos a reconstruir a evolução de estrelas semelhantes à nossa e a entender com que frequência planetas desaparecem dessa maneira.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes