Dormir com ruído rosa pode não ser uma boa ideia, aponta estudo

Ruído rosa pode reduzir o sono REM durante a noite. (Foto: Gustavo Quiroga via Canva)

Dormir bem nunca foi tão desafiador. Entre o barulho das cidades, o estresse diário e a busca por soluções rápidas, milhões de pessoas recorrem a máquinas de som e aplicativos de ruído ambiente para tentar melhorar o descanso noturno. No entanto, novas evidências científicas indicam que essa estratégia, embora popular, pode estar produzindo o efeito oposto ao desejado.

Uma pesquisa publicada na revista científica Sleep, intitulada Eficácia do ruído rosa e de tampões de ouvido na mitigação dos efeitos da exposição intermitente ao ruído ambiental sobre o sono, liderada por Mathias Basner e colaboradores, em 4 de fevereiro de 2026, levanta um alerta importante (DOI: 10.1093/sleep/zsag001).

Impacto do ruído rosa nos estágios mais críticos do son

O estudo avaliou adultos saudáveis em um ambiente controlado de laboratório do sono, comparando diferentes condições acústicas ao longo de várias noites. Os resultados mostram que o ruído rosa, frequentemente associado a relaxamento e concentração, esteve ligado a uma redução significativa do sono REM, fase essencial para memória, equilíbrio emocional e saúde cerebral.

Além disso, quando o ruído rosa foi combinado com ruído ambiental externo, como o tráfego aéreo, a qualidade do sono caiu ainda mais. Houve menos tempo tanto em sono profundo quanto em sono REM, além de mais períodos de vigília noturna.

O papel vital do sono profundo e do sono REM

O sono não é um estado único, mas um ciclo dinâmico entre diferentes estágios. O sono profundo é crucial para a recuperação física, o fortalecimento do sistema imunológico e a limpeza metabólica do cérebro. Já o sono REM está diretamente ligado à consolidação da memória, aprendizado e regulação emocional.

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Interferências nesses estágios, mesmo que sutis, podem gerar consequências cumulativas, como fadiga persistente, dificuldade de concentração e maior vulnerabilidade a transtornos mentais.

Ruído rosa versus silêncio 

Um achado relevante do estudo foi o desempenho dos tampões de ouvido. Diferentemente do ruído contínuo, eles se mostraram eficazes em preservar o sono profundo, mesmo diante do barulho externo. Ou seja, bloquear o som parece ser mais benéfico do que mascará-lo.

Os participantes também relataram:

  • Sensação de sono mais leve com ruído rosa
  • Mais despertares noturnos
  • Pior percepção da qualidade do sono

Esses efeitos praticamente desapareceram quando foram utilizados protetores auriculares.

Um alerta especial para crianças e bebês

Embora o estudo tenha sido conduzido com adultos, os resultados são particularmente relevantes para o público infantil. Crianças passam proporcionalmente mais tempo em sono REM, o que pode torná-las mais sensíveis a interrupções causadas por sons contínuos. Ainda assim, o uso de ruído branco ou rosa em quartos infantis é uma prática comum, apesar da escassez de dados sobre segurança a longo prazo.

O que considerar a partir dessas evidências

Os dados sugerem que menos estímulo pode ser mais proteção quando o assunto é sono. Em vez de adicionar sons ao ambiente noturno, reduzir o ruído com soluções simples pode favorecer um descanso mais restaurador.

À medida que o uso de sons para dormir cresce globalmente, a ciência reforça a necessidade de avaliar criticamente hábitos populares, especialmente quando envolvem funções cerebrais tão sensíveis quanto o sono.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn