O que uma mãe consome durante a gestação e a amamentação pode deixar marcas profundas no organismo do filho, indo muito além do período inicial da vida.
Novas evidências científicas indicam que emulsificantes alimentares, aditivos amplamente presentes em produtos ultraprocessados, são capazes de interferir no desenvolvimento da microbiota intestinal e do sistema imunológico desde as primeiras semanas após o nascimento. Essas alterações silenciosas, embora precoces, podem aumentar o risco de inflamação crônica, doenças intestinais e obesidade na vida adulta.
Aditivos invisíveis com impacto duradouro
Emulsificantes são substâncias usadas para melhorar textura, estabilidade e conservação dos alimentos. Estão presentes em itens como sorvetes, produtos de panificação, laticínios industrializados e algumas fórmulas infantis em pó. Apesar do consumo frequente, seus efeitos a longo prazo sobre o organismo ainda são pouco compreendidos.
Um estudo publicado na revista científica Nature Communications, intitulado “O consumo materno de emulsificantes altera a microbiota e a função das células caliciformes da prole no início da vida, levando à suscetibilidade a doenças de longa duração”, investigou justamente essa lacuna.
Como a pesquisa foi desenvolvida
A pesquisa foi conduzida por Clara Delaroque e colaboradores. No experimento, ratas receberam dois emulsificantes amplamente utilizados na indústria alimentar, carboximetilcelulose (E466) e polissorbato 80 (E433), antes da gestação e durante a amamentação.
Embora os filhotes nunca tenham ingerido diretamente essas substâncias, os pesquisadores observaram mudanças expressivas na composição das bactérias intestinais logo nas primeiras semanas de vida, um período crucial para a formação da imunidade.
Intestino deixa de ensinar ao sistema imunológico

Normalmente, fragmentos bacterianos atravessam o revestimento intestinal por vias específicas, permitindo que o sistema imunológico aprenda a reconhecer e tolerar a microbiota saudável. No entanto, a microbiota alterada nos filhotes apresentou:
- Aumento de bactérias flageladas, associadas à inflamação
- Maior proximidade das bactérias com o epitélio intestinal
- Fechamento precoce das vias de comunicação intestino-imune
Como consequência, esse “treinamento imunológico” foi interrompido. Ao atingirem a fase adulta, os animais apresentaram respostas imunes exacerbadas, inflamação persistente, maior vulnerabilidade a doenças inflamatórias intestinais e maior tendência ao ganho de peso.
O que isso significa para a saúde humana
Embora os resultados tenham sido observados em modelos animais, o estudo levanta alertas importantes. A transmissão da microbiota da mãe para o bebê é um processo essencial para a saúde ao longo da vida. Interferências nesse momento crítico podem gerar efeitos que se estendem por décadas e, possivelmente, por gerações.
Essas descobertas reforçam a necessidade de avaliar com mais rigor o uso de aditivos alimentares, especialmente em produtos consumidos durante a gestação, a amamentação e a primeira infância.

