A dieta cetogênica ganhou fama por sua capacidade de promover perda de peso rápida e melhorar marcadores metabólicos no curto prazo. No entanto, novas evidências científicas indicam que os benefícios visíveis podem ocultar custos metabólicos relevantes quando essa estratégia alimentar é mantida por longos períodos. Um estudo recente aponta que o controle do peso pode vir acompanhado de alterações profundas no metabolismo de gorduras e açúcares.
Emagrecer não significa estar metabolicamente saudável
Cientistas da University of Utah Health analisaram os impactos da dieta cetogênica ao longo do tempo em modelos experimentais. Os resultados foram publicados na revista Science Advances, no estudo intitulado “Uma dieta cetogênica de longo prazo causa hiperlipidemia, disfunção hepática e intolerância à glicose devido à secreção de insulina prejudicada em camundongos”, liderado por Molly R. Gallop e colaboradores, em 2025 (DOI: 10.1126/sciadv.adx2752).
A pesquisa foi desenhada para avaliar não apenas o peso corporal, mas também fígado, pâncreas, perfil lipídico e controle glicêmico, aspectos frequentemente negligenciados em estudos de curta duração.
Como o experimento foi estruturado
Os animais foram acompanhados por mais de nove meses, período considerado longo em estudos metabólicos. Eles receberam diferentes padrões alimentares, incluindo:
- Dieta ocidental rica em gordura
- Dieta pobre em gordura e rica em carboidratos
- Dieta cetogênica tradicional, extremamente rica em gordura
- Dieta equilibrada em proteínas e com baixo teor de gordura
Ao longo do experimento, foram analisados peso corporal, composição corporal, lipídios sanguíneos, glicemia, insulina e acúmulo de gordura hepática, além da atividade genética em células pancreáticas.
Peso sob controle, metabolismo em risco
De fato, a dieta cetogênica impediu o ganho de peso, tanto em machos quanto em fêmeas. Contudo, a análise mais detalhada revelou um dado importante: qualquer aumento de peso ocorreu principalmente por acúmulo de gordura, não de massa magra.
Mais preocupante foi o surgimento de esteatose hepática, conhecida como doença hepática gordurosa, mesmo na ausência de obesidade. Esse quadro é um marcador clássico de disfunção metabólica e costuma estar associado a risco cardiovascular elevado.
Diferenças marcantes entre os sexos
Os efeitos metabólicos não foram uniformes. Os machos desenvolveram danos hepáticos severos, acompanhados de comprometimento funcional do fígado. Já as fêmeas mostraram maior resistência ao acúmulo de gordura hepática, indicando que fatores hormonais e biológicos podem modular a resposta à dieta cetogênica.
O impacto oculto no controle do açúcar no sangue
Outro achado crítico envolveu a regulação glicêmica. Inicialmente, os animais apresentaram baixos níveis de glicose e insulina. No entanto, após a reintrodução de carboidratos, ocorreu uma elevação prolongada e intensa da glicemia.
Isso foi associado à secreção insuficiente de insulina, causada por estresse metabólico nas células pancreáticas. Embora parte dessa disfunção tenha se mostrado reversível após a interrupção da dieta, o padrão sugere um risco significativo em contextos reais.
O que essas descobertas indicam
Embora estudos em animais não possam ser extrapolados diretamente para humanos, os dados reforçam um alerta importante: controle de peso não equivale automaticamente à saúde metabólica. Estratégias alimentares extremamente restritivas podem gerar adaptações silenciosas com consequências de longo prazo.
A dieta cetogênica pode ser eficaz em contextos específicos e por períodos limitados. Entretanto, evidências de longo prazo indicam possíveis efeitos adversos no fígado, no metabolismo lipídico e na resposta glicêmica, especialmente quando adotada sem acompanhamento profissional.

