Clima extremo afeta até roedores adaptados ao deserto, revela estudo

Calor extremo engrossa o sangue de mamíferos selvagens (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)
Calor extremo engrossa o sangue de mamíferos selvagens (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)

Os efeitos do aquecimento global costumam ser medidos em paisagens, incêndios e secas prolongadas. No entanto, um novo estudo revela que as mudanças climáticas também deixam marcas profundas e silenciosas dentro do corpo dos animais. Mesmo espécies altamente adaptadas a ambientes extremos já demonstram sinais fisiológicos de estresse, indicando que os limites da sobrevivência estão sendo testados.

Pesquisas recentes analisaram como o clima mais quente e seco influencia o sangue de mamíferos selvagens, usando como modelo o rato-listrado-africano, um pequeno roedor que habita regiões semiáridas do sul da África. O resultado é claro: à medida que o calor aumenta e a água se torna escassa, o sangue fica mais concentrado e viscoso, um sinal direto de desidratação e sobrecarga fisiológica. Logo nos primeiros achados, os cientistas observaram padrões consistentes:

  • Sangue mais espesso durante estações secas;
  • Maior impacto quando faltam plantas ricas em água;
  • Relação direta entre temperaturas extremas e estresse interno.

O que o sangue revela sobre a luta pela sobrevivência

A chave da descoberta está na osmolalidade sanguínea, um indicador da concentração de substâncias dissolvidas no sangue. Em condições normais, esse parâmetro é rigidamente controlado pelo organismo. Contudo, quando há perda de água ou redução na ingestão de alimentos hidratantes, o sangue se torna mais concentrado.

Mudanças climáticas já afetam a fisiologia dos animais (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)
Mudanças climáticas já afetam a fisiologia dos animais (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)

Mesmo aumentos aparentemente modestos, entre 2% e 3%, indicam um estresse fisiológico relevante, capaz de comprometer funções celulares e orgânicas. Em ambientes naturais, isso significa menos margem de adaptação frente a ondas de calor cada vez mais intensas.

O papel crucial da alimentação na era das secas

O estudo mostra que o impacto do calor não age sozinho. Mais importante do que a temperatura elevada é a disponibilidade de plantas suculentas, principais fontes de água para esses animais. Quando esses alimentos escasseiam, a desidratação se intensifica rapidamente, tornando o sangue ainda mais espesso.

Esse achado reforça que sobreviver à seca depende tanto do clima quanto do ecossistema, especialmente da oferta de alimentos que forneçam hidratação indireta.

Uma nova ferramenta para a conservação em tempos de crise climática

A pesquisa, publicada em revista científica de alto impacto, aponta a osmolalidade sérica como uma ferramenta prática e acessível para avaliar o impacto ambiental em mamíferos selvagens. Com equipamentos simples, é possível detectar sinais precoces de desidratação e intervir antes que populações entrem em declínio.

Em um mundo cada vez mais quente, o sangue se torna um indicador biológico essencial, revelando o custo invisível das mudanças climáticas sobre a vida selvagem e alertando sobre os limites que estamos prestes a ultrapassar.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.