Uma única alteração no DNA pode ser suficiente para transformar o curso de um câncer. Enquanto algumas mutações provocam mudanças discretas no crescimento tumoral, outras funcionam como verdadeiros aceleradores da doença. Agora, cientistas conseguiram mapear de forma sistemática como mutações específicas em um gene central do câncer influenciam diretamente o comportamento dos tumores, trazendo clareza a um dos maiores desafios da oncologia moderna.
O trabalho foi publicado na revista científica Nature Genetics, no estudo A varredura mutacional revela que mutações oncogênicas no CTNNB1 têm diversos efeitos na sinalização, liderado por Anagha Krishna, em 2026 (DOI: 10.1038/s41588-025-02496-5).
Um gene essencial para o controle do crescimento celular
O foco da pesquisa foi o gene CTNNB1, responsável pela produção da β-catenina, uma proteína fundamental para regular o crescimento, a renovação e o reparo dos tecidos. Em células saudáveis, a β-catenina é rigidamente controlada. Quando esse controle falha, a proteína se acumula e passa a ativar genes que estimulam a proliferação celular descontrolada.
Esse mecanismo está presente em diversos tipos de câncer, mas até recentemente não se sabia por que mutações aparentemente semelhantes produziam tumores com comportamentos tão distintos.
O ponto crítico onde tudo muda

Grande parte das mutações associadas ao CTNNB1 concentra-se em um pequeno trecho do gene conhecido como ponto quente mutacional. Essa região funciona como um sinal de degradação da β-catenina. Quando o sinal é danificado, a proteína deixa de ser eliminada no momento correto.
Os pesquisadores decidiram ir além da observação clínica e testaram todas as 342 mutações possíveis de uma única letra de DNA nesse ponto específico. Para isso, utilizaram células-tronco de camundongos, um modelo altamente sensível e comparável ao funcionamento humano da via da β-catenina.
Resultados que explicam a diversidade dos tumores
Cada mutação foi avaliada conforme sua capacidade de ativar a sinalização celular. Os resultados revelaram um espectro amplo de efeitos:
- Mutações com impacto leve, que geram ativação moderada
- Mutações com efeito intenso, que amplificam fortemente o crescimento tumoral
Esse mapa mostrou que mutações oncogênicas não são equivalentes e que sua intensidade biológica ajuda a explicar por que certos tipos de câncer evoluem de forma mais agressiva.
Conexão com o câncer humano e o sistema imunológico
Ao comparar os dados laboratoriais com informações genéticas de milhares de pacientes, os cientistas observaram uma correspondência precisa entre o mapa experimental e os tumores reais. Além disso, diferentes tecidos mostraram preferência por mutações com níveis específicos de ativação da β-catenina.
No câncer de fígado, por exemplo, tumores com mutações mais fracas apresentaram maior presença de células do sistema imunológico, enquanto mutações mais potentes estiveram associadas a ambientes tumorais menos imunorreativos. Esse achado sugere implicações diretas para a resposta à imunoterapia.
Um avanço decisivo para a oncologia de precisão
Ao detalhar como mutações específicas moldam o comportamento tumoral, esse mapa genético representa um passo importante rumo à medicina personalizada, permitindo prever a agressividade do câncer e orientar decisões terapêuticas com maior precisão.

