O consumo de álcool não é uma exclusividade humana. Uma investigação recente publicada na revista Biology Letters revelou que chimpanzés selvagens ingerem etanol de forma recorrente ao se alimentarem de frutas fermentadas na natureza. A pesquisa foi conduzida por especialistas da Universidade da Califórnia no Parque Nacional Kibale, em Uganda.
A equipe analisou amostras de urina de indivíduos da espécie Pan troglodytes e encontrou um dado contundente: a presença de etil glicuronídeo, um metabólito que indica que o organismo processou álcool recentemente. Dos testes realizados, a grande maioria apresentou níveis compatíveis com ingestão significativa de etanol. Principais resultados observados:
- Detecção de metabólitos alcoólicos em 85% das amostras;
- Concentrações superiores a 300 ng/mL em diversos indivíduos;
- Consumo diário estimado equivalente a duas doses humanas padrão;
- Maior frequência de resultados positivos em machos adultos.
Fermentação natural como fonte de etanol
O comportamento está associado ao consumo da fruta da árvore Gambeya albida, conhecida como maçã-estrela africana. Esse fruto passa por fermentação natural ainda no galho, produzindo pequenas quantidades de álcool.
Embora o teor alcoólico individual seja baixo, o volume ingerido compensa essa concentração reduzida. Alguns chimpanzés podem consumir vários quilos de polpa em um único dia. Como resultado, a ingestão acumulada torna-se biologicamente relevante.
Além disso, o uso de tiras reagentes laboratoriais permitiu confirmar que o álcool não estava apenas presente no alimento, mas efetivamente metabolizado pelos animais, um ponto essencial para validar os achados.
A hipótese evolutiva ganha força
Esses dados reforçam a chamada hipótese do macaco bêbado, segundo a qual a atração pelo álcool teria raízes profundas na evolução dos primatas. Frutas fermentadas oferecem alta densidade energética e exalam odores que facilitam sua localização na floresta. Assim, a capacidade de tolerar e metabolizar etanol pode ter representado uma vantagem adaptativa.
A descoberta também abre novas frentes de investigação. Entre elas, avaliar se o consumo frequente influencia padrões sociais, hierarquias ou ciclos reprodutivos nos grupos.
Portanto, as evidências indicam que o relacionamento entre primatas e álcool é antigo. O que hoje associamos à cultura humana pode, na verdade, ter começado como uma estratégia alimentar moldada pela seleção natural.

