O que antes era descartado como resíduo industrial agora pode se tornar uma das fontes de proteína mais promissoras do futuro. Cientistas desenvolveram uma forma inovadora de transformar resíduos do processamento de cenouras em uma proteína nutritiva, sustentável e bem aceita pelo paladar humano. A descoberta aponta para um avanço relevante diante dos desafios globais de segurança alimentar e sustentabilidade ambiental.
O estudo, intitulado “Micélio de Pleurotus djamor: Produção sustentável de uma fonte de proteína promissora a partir de subprodutos da cenoura”, foi publicado no Journal of Agricultural and Food Chemistry. A pesquisa foi conduzida por Leonie Cora Juhrich et al.
Estratégia inteligente na produção de alimentos
Com o crescimento populacional e a limitação de recursos naturais, a produção de alimentos precisa se tornar mais eficiente. Ao mesmo tempo, toneladas de resíduos vegetais são geradas diariamente pela indústria. Diante desse cenário, os pesquisadores exploraram uma abordagem de economia circular, reaproveitando os subprodutos da cenoura como meio de cultivo para fungos comestíveis.
Em vez de utilizar o cogumelo tradicional, o foco foi o micélio fúngico, uma estrutura filamentosa que cresce rapidamente, ocupa pouco espaço e concentra nutrientes importantes. Essa estratégia permite produzir proteína sem demandar novas áreas agrícolas, reduzindo impactos ambientais.
Mas, o que é micélio?

Micélio é a estrutura vegetativa dos fungos, formada por uma rede de filamentos microscópicos chamados hifas. Ele funciona como o “corpo” principal do fungo, responsável por absorver nutrientes, crescer e se espalhar no ambiente.
De forma simples:
- O cogumelo é apenas a parte reprodutiva que vemos.
- O micélio é a parte que fica escondida, crescendo no solo, madeira ou resíduos orgânicos.
Para que serve o micélio?
O micélio atua como um sistema altamente eficiente de reciclagem da natureza. Ele:
- Decompõe matéria orgânica
- Converte resíduos em nutrientes
- Concentra proteínas, fibras e compostos bioativos
Micélio na alimentação
Quando usado como alimento, o micélio:
- É rico em proteínas
- Tem baixo teor de gordura
- Possui boa digestibilidade
- Apresenta textura naturalmente fibrosa, semelhante à carne
Por isso, vem sendo estudado como alternativa sustentável às proteínas animais e vegetais tradicionais, especialmente em produtos como hambúrgueres e salsichas veganas.
Em resumo, o micélio é o motor invisível dos fungos e uma das promessas da alimentação do futuro.
O fungo escolhido e seu valor nutricional
Após testar 106 cepas diferentes de fungos, cultivadas em efluentes de cenouras laranja e pretas, os pesquisadores identificaram o Pleurotus djamor, conhecido como cogumelo-ostra rosa, como a opção mais eficiente. Seu micélio apresentou alto rendimento proteico, além de perfil nutricional comparável ao de proteínas animais e vegetais tradicionais.
Entre os principais destaques nutricionais estão:
- Alto valor biológico da proteína
- Baixo teor de gordura
- Níveis relevantes de fibras alimentares
- Boa digestibilidade pelo organismo humano
Testes de sabor surpreendem

Para avaliar a aceitação do consumidor, o micélio foi utilizado na produção de hambúrgueres e salsichas veganas. Nos hambúrgueres, a proteína de soja foi substituída gradualmente pelo micélio, chegando a versões 100% fúngicas. O resultado foi inesperado: os produtos feitos exclusivamente com micélio receberam as melhores avaliações de sabor, aroma e textura.
Resultados semelhantes foram observados nas salsichas veganas, nas quais o micélio superou versões feitas com grão-de-bico, reforçando seu potencial comercial.
Um caminho viável para a proteína do futuro
Os achados indicam que o micélio cultivado em resíduos de cenoura pode se tornar uma alternativa real às proteínas convencionais. Além de reduzir desperdícios, o processo contribui para sistemas alimentares mais resilientes, eficientes e alinhados às demandas ambientais atuais.
Essa inovação reforça como a ciência pode transformar problemas em soluções, redefinindo o que entendemos como alimento no século XXI.

