Durante décadas, o cuidado com a saúde mental no trabalho foi tratado como benefício opcional, muitas vezes restrito a campanhas pontuais ou ações simbólicas. Mas agora, esse cenário muda de forma definitiva. A partir de maio de 2026, empresas brasileiras passam a ter obrigação legal de identificar, monitorar e prevenir riscos psicossociais, conforme a atualização da NR-1, norma que rege a gestão de riscos ocupacionais.
Essa mudança representa um divisor de águas. Pela primeira vez, fatores como estresse crônico, sobrecarga emocional e ambientes organizacionais tóxicos passam a ter o mesmo peso regulatório que riscos físicos e químicos. Na prática, a saúde mental entra oficialmente no radar da fiscalização trabalhista.
O que muda na gestão de riscos das empresas
Com a nova redação da NR-1, os riscos psicológicos devem integrar obrigatoriamente o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Isso exige uma abordagem estruturada, contínua e documentada. Entre os principais fatores que passam a ser avaliados, destacam-se:
- Assédio moral, pressão constante e cultura do medo
- Cargas excessivas de trabalho e metas inalcançáveis
- Falta de clareza nas funções e ausência de apoio da liderança
Além disso, as empresas deverão adotar medidas preventivas, acompanhar indicadores e revisar processos sempre que houver sinais de adoecimento mental coletivo. Portanto, não se trata apenas de mapear problemas, mas de agir de forma concreta para reduzi-los.
Um alerta sustentado por dados preocupantes

A atualização da norma surge em resposta a um cenário alarmante. Em 2024, o Brasil registrou cerca de 470 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais, o maior número da última década. Esse dado revela que o adoecimento psicológico deixou de ser exceção e passou a impactar diretamente a produtividade e a sustentabilidade das organizações.
Além disso, observa-se um crescimento expressivo no uso de medicamentos para ansiedade e burnout, tanto entre líderes quanto entre equipes operacionais. Esse aumento indica que o problema não está restrito a indivíduos, mas reflete modelos de trabalho disfuncionais que se perpetuam dentro das empresas.
Os riscos de ignorar a nova exigência legal
A negligência em relação à saúde mental passa a gerar consequências em múltiplos níveis. Do ponto de vista financeiro, empresas ficam sujeitas a multas, autuações e ações trabalhistas. No campo operacional, o impacto aparece na queda de desempenho, aumento de erros e absenteísmo. Já no aspecto reputacional, marcas associadas a ambientes adoecedores perdem valor e enfrentam dificuldades para atrair e reter talentos.
Além disso, a pressão jurídica tende a crescer. A ausência de ações preventivas documentadas pode ser interpretada como falha grave na gestão de riscos, ampliando a responsabilidade das organizações.
Uma nova métrica de liderança e competitividade
Com o prazo se aproximando, o recado é direto: liderar bem passa a incluir proteger a saúde mental das equipes. Empresas que se anteciparem não apenas reduzem riscos legais, como também ganham vantagem competitiva ao construir ambientes mais saudáveis, engajados e produtivos.
Em síntese, a saúde mental deixa de ser um tema periférico e se consolida como pilar estratégico, jurídico e humano do mundo do trabalho no Brasil.

