A COVID longa é um desafio crescente para a medicina, afetando milhões de pessoas mesmo meses após a infecção inicial pelo SARS-CoV-2. Estima-se que 65 milhões de indivíduos em todo o mundo sofram com sintomas persistentes, que podem incluir fadiga extrema, alterações cognitivas, dor muscular, problemas cardíacos e respiratórios.
Pesquisas recentes indicam que esses sintomas podem ser alimentados por inflamação crônica e microcoágulos sanguíneos, revelando mecanismos biológicos complexos por trás da doença.
O papel dos microcoágulos na COVID longa
De acordo com o estudo “Insights into potential therapeutic approaches for long COVID”, publicado na revista Frontiers of Medicine por Jingya Zhao, Yingqi Lyu e Jieming Qu (2025), a interação da proteína spike viral com o fibrinogênio favorece a formação de pequenos coágulos sanguíneos. Estes microcoágulos podem obstruir vasos finos e reduzir a oxigenação de tecidos vitais, prejudicando cérebro, coração e rins.
Além disso, a persistência do vírus e a inflamação crônica, com elevação de citocinas como IL-1β, IL-6 e TNF-α, podem amplificar a disfunção orgânica. Outros fatores incluem autoimunidade, alterações na microbiota intestinal e disfunção mitocondrial, todos contribuindo para sintomas persistentes como fadiga, alterações cognitivas e desregulação cardiovascular.
Reabilitação e intervenções não farmacológicas

Para pacientes com sintomas leves, estratégias não medicamentosas continuam sendo essenciais. Programas de reabilitação física e mental estruturada, exercícios respiratórios e treinamento da musculatura inspiratória podem melhorar a capacidade cardiovascular e pulmonar.
Além disso, o controle do ritmo das atividades, reeducação olfativa e apoio nutricional têm mostrado benefícios. No entanto, exercícios não supervisionados podem exacerbar a inflamação, tornando essencial um acompanhamento individualizado.
Tratamentos farmacológicos e experimentais
Medicamentos antivirais administrados durante a fase aguda da COVID-19 parecem reduzir ligeiramente o risco de COVID longa. Estudos recentes apontam que fármacos como ensitrelvir, nirmatrelvir/ritonavir e molnupiravir podem diminuir em cerca de 25% o risco de desenvolvimento de sintomas persistentes.
Para complicações específicas, alguns medicamentos focam na coagulação e inflamação, incluindo naltrexona em baixa dose para fadiga e agregação plaquetária, bem como procedimentos de aférese que removem microcoágulos e autoanticorpos, embora de efeito limitado e custo elevado.
Outras pesquisas estão avaliando medicamentos anti-inflamatórios, como metformina, baricitinibe e rapamicina, que modulam vias como mTOR e JAK/STAT3, com o objetivo de reduzir a inflamação sistêmica precoce. Suplementos e ajustes da microbiota intestinal também têm mostrado efeitos positivos na função mitocondrial e energia celular.
Perspectivas futuras
Embora existam diversas abordagens promissoras, a maior parte das evidências ainda provém de estudos de pequena escala. Ensaios clínicos randomizados e de grande porte são necessários para confirmar a eficácia das intervenções. Até lá, especialistas recomendam tratamento multidisciplinar, combinando reabilitação, antivirais, anticoagulantes, anti-inflamatórios e suporte nutricional, alinhado à avaliação individual dos pacientes.
A compreensão do papel de microcoágulos e inflamação crônica na COVID longa abre caminho para terapias mais direcionadas, oferecendo esperança para milhões de pessoas afetadas e permitindo o desenvolvimento de estratégias preventivas e de tratamento mais eficazes.

