Identificar corretamente vírus respiratórios nem sempre é simples. COVID-19, gripe e vírus sincicial respiratório compartilham sintomas parecidos, o que dificulta o diagnóstico rápido e preciso. Porém, uma descoberta envolvendo a tecnologia CRISPR pode mudar esse cenário ao abrir caminho para um teste único, capaz de identificar diferentes vírus respiratórios com mais eficiência.
O avanço foi descrito na revista científica Nature, no estudo “Cas12a3 desencadeada por RNA cliva caudas de tRNA para executar imunidade bacteriana”, assinado por Oleg Dmytrenko e colaboradores. A pesquisa revelou uma função até então desconhecida de um sistema CRISPR menos famoso, o Cas12a3, com grande potencial para aplicações em diagnóstico.
O que torna esse CRISPR diferente?
Quando se fala em CRISPR, muitas pessoas pensam na edição de genes. De fato, sistemas como o CRISPR-Cas9 ficaram conhecidos por cortar DNA de forma precisa. No entanto, o Cas12a3 funciona de maneira diferente: ele atua diretamente sobre o RNA, o mesmo tipo de material genético usado por vários vírus respiratórios.
Essa característica faz toda a diferença. Em vez de modificar genes, o Cas12a3 reage à presença do RNA viral e ativa um mecanismo natural de defesa extremamente seletivo.
Por que o tRNA é tão importante nessa descoberta?

O ponto-chave da pesquisa está no alvo do Cas12a3: o RNA transportador, ou tRNA. Esse componente é essencial para a produção de proteínas dentro das células. Sem ele funcionando corretamente, os vírus não conseguem se multiplicar.
O estudo mostrou que o Cas12a3 corta uma parte específica do tRNA, conhecida como cauda. Com isso, a produção de proteínas virais é interrompida, enquanto o DNA da célula humana permanece intacto. Essa precisão torna o sistema especialmente interessante para uso em testes diagnósticos.
Um novo caminho para testes mais eficientes
Na prática, essa descoberta pode permitir o desenvolvimento de testes rápidos capazes de detectar COVID-19, gripe e VSR, separadamente ou em conjunto. Entre os possíveis benefícios estão:
- Diagnósticos mais rápidos e confiáveis
- Menor risco de interferir em células humanas
- Capacidade de diferenciar vírus com sintomas semelhantes
- Potencial uso em um único teste para vários patógenos
Além disso, como o método se baseia no reconhecimento direto do RNA viral, ele pode funcionar mesmo quando a quantidade de vírus no organismo é baixa.
O futuro dos diagnósticos virais
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Estadual de Utah em parceria com instituições europeias, amplia o entendimento sobre a diversidade dos sistemas CRISPR. Mais do que uma ferramenta de edição genética, o CRISPR surge como uma base promissora para diagnóstico molecular, especialmente em infecções respiratórias.
Se os resultados forem confirmados em aplicações clínicas, essa tecnologia poderá transformar a forma como doenças virais são identificadas, trazendo mais rapidez, precisão e segurança para pacientes e profissionais de saúde.

