Vírus esquecido na infância pode causar demência na velhice, diz estudo

Vírus da catapora pode aumentar risco de demência. (Foto: Getty Images / Boontanataweepol's Images via Canva)

A relação entre infecções virais e doenças neurodegenerativas tem recebido cada vez mais atenção da comunidade científica. Um estudo intitulado “A associação entre o vírus varicela-zóster e a demência: uma revisão sistemática e meta-análise de estudos observacionais”, conduzido por Juan Gao, analisou diversos estudos e indicou que a reativação do Vírus Varicella-zóster (VZV), responsável pela catapora e, posteriormente, pelo herpes-zóster, está associada a um risco significativamente maior de desenvolver demência.

Diferença entre catapora e herpes-zóster

Embora ambos os problemas sejam causados pelo mesmo vírus, há diferenças importantes:

  • Catapora (Varicella): ocorre geralmente na infância, causando erupções cutâneas generalizadas, febre e mal-estar. Após a recuperação, o vírus permanece latente no sistema nervoso.
  • Herpes-zóster (cobreiro): ocorre quando o vírus da catapora reativa-se anos depois, geralmente em adultos ou idosos, provocando dor, lesões localizadas e inflamação nervosa.

É a reativação do VZV, e não a infecção inicial da catapora, que tem sido ligada ao aumento do risco de declínio cognitivo e demência.

Infecção por VZV e aumento do risco de demência

Prevenir herpes-zóster ajuda a proteger o cérebro. (Foto: Getty Images via Canva)

A análise dos dados revelou que pessoas com histórico de herpes-zóster apresentaram maior incidência de demência. O risco foi ainda maior em indivíduos com múltiplas reativações, sugerindo que a recorrência do vírus pode ter efeito cumulativo sobre o cérebro.

Além disso, o estudo aponta que tratamentos antivirais ou a vacinação contra herpes-zóster podem reduzir esse risco, reforçando a importância da prevenção como estratégia para a saúde cerebral.

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Possíveis mecanismos biológicos

Embora ainda não exista uma explicação definitiva, algumas hipóteses incluem:

  • Neurotropismo do VZV: o vírus pode infectar células nervosas, causando inflamação.
  • Inflamação crônica: reativações frequentes podem gerar dano neuronal e vascular ao longo do tempo.
  • Impacto cumulativo: episódios graves ou recorrentes parecem aumentar significativamente o risco de comprometimento cognitivo.

Limitações atuais

A maioria das evidências têm origem de estudos observacionais, o que significa que associação não implica causalidade. Mais pesquisas são necessárias para compreender os mecanismos e confirmar se a prevenção da reativação do VZV pode reduzir efetivamente o risco de demência.

O estudo reforça que a prevenção viral é essencial para a saúde do cérebro ao longo da vida. Medidas importantes incluem:

  • Vacinação contra herpes-zóster em idosos ou adultos com risco elevado.
  • Tratamento rápido de episódios de herpes-zóster para reduzir complicações.
  • Cuidados gerais com a saúde imunológica e controle de doenças crônicas.

O VZV não é apenas uma doença dermatológica; seu impacto pode se estender ao cérebro, mostrando que a saúde viral é um fator relevante na prevenção de demência.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn