Não é a intensidade: frequência dos exercícios chamou atenção em estudo sobre depressão

A frequência dos exercícios foi associada a menos sintomas depressivos. (Imagem: Robert Kneschke)

A prática de exercícios físicos costuma ser associada à melhora do humor e à preservação da saúde mental. Entretanto, não é apenas a decisão de se movimentar que pode fazer diferença. A frequência, a duração e a regularidade dos exercícios também podem estar relacionadas aos benefícios psicológicos, especialmente durante o envelhecimento.

Uma pesquisa publicada em outubro de 2026 investigou justamente essa relação em mulheres idosas chinesas. Os pesquisadores analisaram diferentes características da atividade física para descobrir quais delas estavam associadas a menores níveis de sintomas depressivos nos anos seguintes.

Os resultados chamaram a atenção para um aspecto importante: praticar exercícios com maior frequência esteve associado a menores pontuações de sintomas depressivos, independentemente de outros fatores considerados na análise.

Frequência dos exercícios aparece como característica importante

O estudo acompanhou 1.094 mulheres idosas que viviam em comunidades na China. Os pesquisadores avaliaram os hábitos de atividade física das participantes em 2019, considerando quatro características principais:

  • Frequência: quantas vezes os exercícios eram praticados.
  • Duração: quanto tempo cada sessão de atividade física levava.
  • Intensidade: o nível de esforço exigido durante os exercícios.
  • Persistência: a continuidade da prática ao longo do tempo.

Além disso, os sintomas depressivos foram avaliados por meio da Escala de Autoavaliação de Depressão (SDS), aplicada inicialmente e novamente durante o acompanhamento.

Com essas informações, a equipe conseguiu investigar se determinados padrões de exercício estavam relacionados aos resultados posteriores de saúde mental.

Um dos achados mais relevantes foi a associação entre maior frequência de atividade física e menores pontuações na escala de sintomas depressivos. Essa relação permaneceu estatisticamente significativa mesmo após os pesquisadores considerarem os níveis iniciais de sintomas depressivos e outras características demográficas e de saúde das participantes.

Mais tempo de exercício nem sempre significa maior benefício

Estudo aponta: regularidade no exercício é chave para saúde mental de idosas. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Outro resultado interessante apareceu quando os pesquisadores analisaram somente as 637 mulheres que já praticavam exercícios no início da investigação.

Nesse grupo, tanto a maior duração das atividades físicas quanto a persistência da prática apresentaram associações com menores pontuações de sintomas depressivos no acompanhamento.

Entretanto, quando a frequência dos exercícios também foi considerada na análise, essas associações perderam significância estatística.

Isso indica que a quantidade de vezes que uma pessoa se exercita pode ter um papel particularmente importante nessa relação. Em outras palavras, os resultados sugerem que a regularidade da atividade física merece atenção, e não apenas o tempo dedicado a cada sessão.

Por outro lado, a intensidade dos exercícios não apresentou uma associação estatisticamente significativa com os sintomas depressivos nessa população.

Portanto, os dados não permitem afirmar que atividades mais intensas sejam necessariamente melhores para a saúde mental de mulheres idosas.

Por que a atividade física pode favorecer a saúde mental?

A relação entre movimento corporal e bem-estar psicológico envolve diferentes mecanismos biológicos e comportamentais.

Durante a atividade física, o organismo passa por alterações na circulação sanguínea, na atividade do sistema nervoso e na liberação de substâncias envolvidas na regulação do humor.

Além disso, a prática regular pode contribuir para melhorar a qualidade do sono, preservar a autonomia, favorecer a interação social e reduzir o sedentarismo.

Esses fatores são especialmente relevantes durante o envelhecimento, período em que mudanças na mobilidade, na rotina e nas relações sociais podem afetar o bem-estar emocional.

Entretanto, é importante destacar que a pesquisa não investigou diretamente esses mecanismos. Portanto, eles ajudam a contextualizar os possíveis benefícios dos exercícios, mas não representam conclusões específicas do estudo.

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Pesquisa aponta associação, mas não comprova prevenção da depressão

O trabalho foi publicado em 30 de outubro de 2026, na revista científica Scientific Reports, por Liang Ding, Wei Zhang e Wang Li. O artigo recebeu o título original Longitudinal associations between specific exercise components and depressive symptoms in Chinese older women.

A investigação utilizou um acompanhamento longitudinal, permitindo observar a relação entre os hábitos de exercício registrados inicialmente e os sintomas depressivos identificados posteriormente.

Apesar disso, existe uma limitação importante: os resultados demonstram associações, não uma relação direta de causa e efeito. Assim, não é possível afirmar que aumentar a frequência dos exercícios, por si só, seja suficiente para prevenir ou tratar a depressão.

Também é necessário considerar que a pesquisa envolveu mulheres idosas chinesas residentes na comunidade. Dessa forma, os resultados não devem ser automaticamente generalizados para homens, pessoas mais jovens ou populações de outros países.

Ainda assim, a investigação acrescenta informações importantes sobre a relação entre atividade física e envelhecimento saudável. Os resultados sugerem que manter uma rotina frequente de exercícios pode estar associado a melhores indicadores de saúde mental.

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter informativo e educacional, não substituindo, em hipótese alguma, a avaliação, diagnóstico ou tratamento de um profissional de saúde qualificado.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica e editora de saúde do Portal Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação na internet, garantindo que o conteúdo seja sempre baseado em rigor técnico, empatia e evidências científicas de qualidade. Ver perfil no LinkedIn