A produção de energia limpa é uma das principais estratégias para reduzir a dependência de combustíveis fósseis. Entretanto, a instalação de grandes estruturas no oceano também pode provocar mudanças menos conhecidas: a transformação das relações alimentares entre diferentes espécies marinhas.
É o que indica uma pesquisa publicada na revista científica Scientific Reports, que investigou como parques eólicos offshore podem modificar a organização dos ecossistemas marinhos. Os resultados mostram que as fundações das turbinas podem funcionar como recifes artificiais, atraindo organismos e criando novas interações entre os habitantes do oceano.
Embora essas estruturas possam favorecer a biodiversidade em determinadas áreas, seus efeitos também podem alcançar diferentes níveis da cadeia alimentar.
Fundações das turbinas criam novos ambientes no oceano
Os parques eólicos offshore são instalações de produção de eletricidade construídas em ambientes marinhos. Suas turbinas ficam apoiadas em estruturas fixadas no fundo do oceano, que podem modificar as condições ambientais ao redor.
Uma das mudanças mais importantes acontece porque essas superfícies artificiais oferecem locais para a fixação e o desenvolvimento de organismos marinhos.
Entre eles estão os bivalves, grupo que inclui mexilhões e ostras. Esses animais podem se estabelecer nas fundações das turbinas e nas estruturas de proteção contra erosão instaladas ao redor delas.
Com o passar do tempo, essas superfícies podem funcionar como recifes artificiais, oferecendo abrigo, alimento e condições para a presença de outras espécies.
Consequentemente, a instalação de turbinas pode modificar a distribuição dos organismos e criar novas oportunidades de alimentação para determinados animais.
Pesquisa identifica mudanças nas cadeias alimentares marinhas
Para investigar essas transformações, pesquisadores desenvolveram modelos matemáticos capazes de representar as relações alimentares em ecossistemas marinhos.
O trabalho foi publicado em 25 de julho de 2026, na revista Scientific Reports. A pesquisa foi liderada por Kimberly A. Lato e avaliou possíveis impactos do desenvolvimento de energia eólica offshore em três regiões do Atlântico dos Estados Unidos.
Os cientistas reuniram informações disponíveis sobre os organismos desses ambientes e utilizaram modelos lineares inversos para comparar a organização das cadeias alimentares antes da construção dos parques e as condições estimadas para quatro anos depois da instalação.
Os resultados apontaram uma possível transformação dos ecossistemas em direção a sistemas mais maduros e estáveis. Entretanto, as respostas variaram conforme o local analisado e a métrica ecológica utilizada.
Um dos achados mais interessantes envolveu os bivalves associados às estruturas das turbinas. Entre os organismos relacionados às instalações eólicas, eles apresentaram o maior impacto sobre as relações alimentares representadas nos modelos.
Isso significa que organismos aparentemente pequenos, como mexilhões e ostras, podem desempenhar um papel importante na reorganização das interações ecológicas ao redor dessas estruturas.
Macrofauna também desempenha papel importante no equilíbrio ecológico
Outro resultado relevante envolveu a macrofauna sedimentar, formada por organismos que vivem sobre ou dentro dos sedimentos marinhos.
Esse grupo apresentou a maior influência trófica em todos os modelos analisados. Sua importância está relacionada à participação em diferentes processos ecológicos, incluindo a alimentação de outros animais e a movimentação de matéria orgânica no ambiente.
Portanto, as mudanças provocadas pela instalação de parques eólicos não se limitam às superfícies das turbinas. Elas também podem envolver organismos que habitam o fundo do oceano e participam diretamente do funcionamento dos ecossistemas.
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Energia renovável também exige monitoramento ambiental
Apesar dos resultados promissores em algumas métricas ecológicas, os pesquisadores identificaram limitações relacionadas à disponibilidade de dados. Uma das principais dificuldades envolveu os organismos participantes do ciclo microbiano, que desempenham funções importantes na circulação de nutrientes.
Além disso, é necessário considerar que maior biodiversidade local não significa necessariamente ausência de impactos ambientais. A chegada de novas espécies pode alterar a disponibilidade de recursos e modificar as relações entre organismos que já habitavam determinada região.
Por isso, compreender os efeitos dos parques eólicos offshore exige acompanhamento ambiental de longo prazo, considerando diferentes espécies, períodos e regiões.
