O ponto mais preocupante dessa pesquisa é que algumas espécies de morcegos podem desaparecer antes mesmo de receber um nome científico. Uma investigação identificou 95 linhagens evolutivas potencialmente desconhecidas nos Neotrópicos e aponta que a destruição de habitats e as mudanças climáticas podem acelerar esse processo.
É importante destacar que essas linhagens ainda precisam de validação taxonômica. Portanto, não se trata de 95 espécies já formalmente reconhecidas, mas de uma diversidade escondida que pode estar desaparecendo enquanto a ciência tenta identificá-la.
Quantas espécies de morcegos ainda não conhecemos?
Os morcegos formam um dos grupos mais diversos de mamíferos. Além de ocuparem diferentes ambientes, desempenham funções ecológicas importantes, como dispersar sementes, polinizar plantas e controlar populações de insetos.
Apesar dessa importância, identificar todas as espécies existentes continua sendo um desafio. Algumas linhagens apresentam diferenças genéticas significativas, mas são tão parecidas fisicamente que podem passar despercebidas em levantamentos tradicionais.
Esse fenômeno é conhecido como diversidade críptica. Nesse caso, organismos que parecem pertencer à mesma espécie podem representar linhagens evolutivas distintas.
Para investigar essa diversidade, os pesquisadores analisaram 12.813 sequências genéticas de morcegos neotropicais e construíram 63 filogenias, abrangendo 65 gêneros. A análise identificou 45 complexos de espécies que abrigam 95 linhagens potencialmente não descritas.
As linhagens foram encontradas nas nove famílias de morcegos presentes na região. Entre elas, Phyllostomidae apresentou 42 linhagens e Vespertilionidae, 26.
A destruição das florestas pode apagar espécies desconhecidas
A descoberta ganha uma dimensão ainda mais preocupante quando os pesquisadores avaliam as ameaças ambientais. Segundo os resultados, 62% dos complexos analisados enfrentam perda iminente de habitat. Além disso, a maioria deverá perder mais da metade das áreas ambientalmente adequadas até 2070.
Isso significa que algumas linhagens podem sofrer reduções importantes em seus ambientes naturais antes mesmo de serem reconhecidas oficialmente como espécies.
A situação é especialmente delicada porque a identificação científica não acontece de maneira instantânea. É necessário reunir evidências genéticas, evolutivas, geográficas e, quando possível, características morfológicas e ecológicas que permitam distinguir uma espécie de outra.
Enquanto esse trabalho avança, a expansão das atividades humanas e as alterações climáticas podem modificar os ambientes dos quais esses animais dependem.
Onde estão os principais pontos de risco?
Para localizar as regiões que merecem atenção, a equipe desenvolveu um Índice de Riqueza de Espécies Ocultas (HSR). A ferramenta combina informações sobre a presença de linhagens potencialmente desconhecidas com ameaças humanas e vulnerabilidade climática.
A análise identificou dez áreas prioritárias nos Neotrópicos, onde a diversidade ainda não reconhecida coincide com condições ambientais preocupantes.
Esses locais podem orientar pesquisas de campo, investimentos científicos e ações de conservação. Afinal, proteger uma região antes que suas espécies sejam formalmente descritas pode ser decisivo para evitar perdas irreversíveis.
Por que descobrir uma espécie também é uma questão de conservação?
Publicado em 2026 na revista científica Nature Communications, o estudo liderado por Diego A. Esquivel, com participação de Angie Penagos, Anderson Feijó e Maria João Ramos Pereira, evidencia uma dificuldade importante da conservação: espécies que ainda não foram identificadas podem permanecer fora das avaliações de risco e das políticas de proteção.
O trabalho também aponta que, mantendo-se o ritmo atual de descrição, o reconhecimento formal dessa diversidade poderia levar décadas.
Por isso, os autores defendem que a pesquisa taxonômica avance em conjunto com as iniciativas de conservação. Identificar essas linhagens não é apenas ampliar o catálogo da biodiversidade, mas reconhecer quais formas de vida precisam de proteção antes que seus habitats desapareçam.
