Câncer de cólon: imunoterapia antes da cirurgia apresentou resultados promissores

Estudo investigou uma nova estratégia contra tumores de cólon. (Imagem: Science Photo Library)

Um tratamento realizado antes da cirurgia pode mudar a maneira como determinados casos de câncer de cólon são abordados. Em um estudo clínico de fase 2, pesquisadores avaliaram uma combinação de medicamentos capazes de estimular o sistema imunológico a reconhecer e combater células tumorais. Os resultados chamaram a atenção principalmente entre pacientes cujos tumores apresentam características associadas à resistência às imunoterapias convencionais.

A pesquisa investigou o uso de botensilimabe e balstilimabe, administrados antes da retirada cirúrgica do tumor. Em um dos grupos avaliados, a combinação alcançou resposta patológica maior em todos os participantes, indicando uma redução muito expressiva da quantidade de tecido tumoral viável.

Além disso, os resultados sugerem que essa estratégia pode ampliar as possibilidades de utilização da imunoterapia em fases iniciais do câncer de cólon.

Dois medicamentos atuaram em diferentes mecanismos de defesa do tumor

O sistema imunológico possui mecanismos naturais para identificar células anormais. Entretanto, alguns tumores desenvolvem estratégias para escapar dessa vigilância, dificultando sua identificação e destruição pelas células de defesa.

É nesse contexto que entram os inibidores de checkpoint imunológico, medicamentos que interferem em mecanismos utilizados pelas células tumorais para limitar a atividade imunológica.

No estudo, os pesquisadores avaliaram dois medicamentos:

  • Botensilimabe: anticorpo monoclonal que atua sobre a proteína CTLA-4 e apresenta mecanismos adicionais de modulação da resposta imunológica.
  • Balstilimabe: anticorpo que bloqueia a proteína PD-1, ajudando a recuperar a capacidade das células de defesa de combater o tumor.

A proposta foi utilizar esses medicamentos antes da cirurgia, período chamado de tratamento neoadjuvante. Dessa maneira, os pesquisadores puderam observar como os tumores respondiam à intervenção antes de serem removidos.

Resultados variaram conforme as características do câncer

Infográfico: eficácia da combinação de imunoterapia em dMMR e pMMR. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Um aspecto importante da pesquisa foi a classificação dos tumores conforme a capacidade de reparar erros que acontecem durante a duplicação do DNA.

Foram avaliados dois grupos:

dMMR: tumores com deficiência no mecanismo de reparo de erros de pareamento do DNA.

pMMR: tumores que apresentam esse mecanismo de reparo preservado.

Essa diferença é importante porque os cânceres com deficiência no reparo do DNA geralmente apresentam maior sensibilidade a determinadas imunoterapias. Já os tumores pMMR costumam ser mais resistentes a esses tratamentos.

Os resultados da combinação foram:

  • 100% de resposta patológica maior no grupo dMMR que recebeu os dois medicamentos.
  • 36% de resposta patológica maior no grupo pMMR tratado com a combinação.
  • 36% de resposta patológica maior no grupo dMMR que recebeu apenas botensilimabe.
  • 0% de resposta patológica maior no grupo pMMR tratado somente com botensilimabe.

Esses números mostram que a associação dos medicamentos apresentou resultados mais expressivos do que o uso isolado de botensilimabe nas condições avaliadas.

Combinação alcançou resposta expressiva em tumores mais resistentes

O resultado mais relevante apareceu entre os pacientes com câncer pMMR que receberam a combinação. Esse subtipo costuma apresentar menor resposta aos inibidores de checkpoint imunológico utilizados isoladamente.

Nesse grupo, 36% dos participantes apresentaram resposta patológica maior, resultado que indica uma redução significativa do tumor após o tratamento.

Já entre os pacientes com dMMR que receberam botensilimabe associado ao balstilimabe, o índice chegou a 100% de resposta patológica maior.

É importante entender o significado desse indicador. No estudo, uma resposta patológica maior correspondia à presença de, no máximo, 10% de tumor viável residual no tecido examinado após o tratamento.

Portanto, esse resultado não significa necessariamente que todos os pacientes ficaram completamente livres do câncer. Ele indica que a quantidade de células tumorais ainda viáveis foi muito pequena.

Exame de sangue também ajudou a avaliar a resposta

Outro aspecto investigado foi o comportamento do DNA tumoral circulante (ctDNA), material genético liberado pelas células cancerígenas na corrente sanguínea.

Os pesquisadores observaram que o desaparecimento desse material no sangue antes da cirurgia estava associado a melhores respostas patológicas. Além disso, essa eliminação também se relacionou à ausência de recorrência da doença até o período de acompanhamento considerado na análise.

Esse achado é relevante porque o ctDNA pode ajudar a acompanhar a atividade do câncer e, futuramente, contribuir para estratégias de monitoramento após o tratamento.

Entretanto, ainda são necessárias pesquisas para estabelecer como esse marcador poderá ser utilizado na prática clínica.

Efeitos adversos também foram observados durante o tratamento

Apesar dos resultados positivos, a imunoterapia não está livre de riscos. Como esses medicamentos modificam a atividade do sistema imunológico, podem provocar reações inflamatórias em diferentes órgãos e tecidos.

No estudo, eventos adversos relacionados à imunidade foram registrados em:

  • 29% dos pacientes que receberam apenas botensilimabe.
  • 54% dos pacientes que receberam a combinação de botensilimabe e balstilimabe.

Entre as manifestações mais frequentes estavam sintomas semelhantes aos de uma gripe e episódios de diarreia.

Esses dados mostram que o possível benefício da combinação precisa ser avaliado em conjunto com sua segurança, especialmente porque os pacientes estavam recebendo o tratamento antes de uma cirurgia.

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Pesquisa abre caminho para novas estratégias contra o câncer de cólon

O estudo clínico de fase 2 UNICORN foi publicado em 2 de novembro de 2026, na revista científica Nature Medicine. O primeiro autor é Filippo Ghelardi, e a pesquisa avaliou 56 pacientes com câncer de cólon localmente avançado e passível de remoção cirúrgica.

O trabalho, intitulado Neoadjuvant botensilimab with or without balstilimab in pMMR and dMMR colon cancer: the phase 2 UNICORN trial, investigou se a combinação poderia ampliar os benefícios da imunoterapia para diferentes características tumorais.

Embora os resultados sejam promissores, é importante considerar que se trata de um estudo de fase 2, com número relativamente pequeno de participantes. Portanto, os resultados ainda precisam ser confirmados em pesquisas maiores, antes que essa estratégia possa ser considerada uma nova abordagem estabelecida para o tratamento do câncer de cólon.

A descoberta amplia as possibilidades de investigação sobre tratamentos personalizados, especialmente para pacientes cujos tumores apresentam menor sensibilidade às imunoterapias tradicionais.

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter informativo e educacional, não substituindo, em hipótese alguma, a avaliação, diagnóstico ou tratamento de um profissional de saúde qualificado.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica e editora de saúde do Portal Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação na internet, garantindo que o conteúdo seja sempre baseado em rigor técnico, empatia e evidências científicas de qualidade. Ver perfil no LinkedIn