Cientistas encontram as cinco bases do DNA e RNA em um asteroide

Amostras do asteroide Ryugu contêm os cinco ingredientes genéticos essenciais para a vida (Imagem: JAXA Hayabusa 2 ONC-T v-filter Date observation: 2018-07-10)

Os ingredientes químicos necessários para construir moléculas responsáveis pela informação genética não estão presentes apenas na Terra. Alguns deles também podem ser encontrados em rochas espaciais que vagam pelo Sistema Solar. Uma descoberta particularmente interessante aconteceu no asteroide Ryugu, onde cientistas identificaram as cinco nucleobases canônicas utilizadas pelos seres vivos na composição do DNA e do RNA.

O achado chama a atenção porque essas moléculas são fundamentais para o armazenamento e a transmissão das informações genéticas. Além disso, sua presença em um corpo celeste primitivo ajuda a investigar uma questão fascinante: será que parte dos componentes químicos necessários para o surgimento da vida chegou à Terra por meio de asteroides?

As cinco letras químicas encontradas em uma rocha espacial

As nucleobases são moléculas que participam da formação dos ácidos nucleicos, estruturas essenciais para a vida conhecida. Elas funcionam como unidades químicas que ajudam a organizar as informações genéticas. No estudo, os pesquisadores identificaram as cinco bases canônicas:

  • Adenina (A): presente no DNA e no RNA.
  • Guanina (G): também encontrada nos dois ácidos nucleicos.
  • Citosina (C): participa da composição do DNA e do RNA.
  • Timina (T): característica do DNA.
  • Uracila (U): encontrada no RNA, ocupando o lugar da timina.

Essas moléculas participam da formação dos códigos genéticos que orientam a produção de proteínas e o funcionamento das células. Portanto, encontrar todas elas em material extraterrestre representa uma descoberta importante para a astrobiologia e para o estudo da origem da vida.

Como os cientistas encontraram moléculas orgânicas no espaço?

Amostras do asteroide Ryugu contêm os cinco componentes genéticos essenciais para a vida (Imagem: JAXA)

O material analisado veio da missão japonesa Hayabusa2, desenvolvida pela Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA). A espaçonave visitou o asteroide Ryugu, coletou pequenas quantidades de material de sua superfície e trouxe as amostras de volta à Terra em dezembro de 2020.

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Diferentemente de meteoritos que atravessam a atmosfera terrestre antes de serem encontrados, essas amostras foram coletadas diretamente no espaço. Isso permite investigar sua composição com menor risco de contaminação por substâncias presentes no ambiente terrestre.

A pesquisa foi publicada em 16 de março de 2026, na revista científica Nature Astronomy, com Toshiki Koga como primeiro autor. Os cientistas analisaram amostras de diferentes pontos de coleta de Ryugu utilizando técnicas laboratoriais capazes de identificar compostos orgânicos em concentrações muito pequenas.

Além das cinco nucleobases, foram identificadas outras moléculas nitrogenadas, como hipoxantina e xantina, que participam de processos químicos relacionados à formação de nucleotídeos.

O que Ryugu revela sobre a química que antecedeu a vida?

Um detalhe interessante apareceu quando os pesquisadores compararam Ryugu com outros materiais extraterrestres, incluindo o meteorito Murchison, o meteorito Orgueil e amostras do asteroide Bennu.

As proporções entre os grupos de nucleobases variaram bastante. Em Ryugu, as purinas, adenina e guanina, apareceram em quantidades próximas às das pirimidinas, grupo que inclui citosina, timina e uracila.

Já Murchison apresentou predominância de purinas, enquanto Bennu e Orgueil mostraram maior abundância de pirimidinas.

Essas diferenças podem estar relacionadas às condições químicas existentes nos corpos celestes de origem. Os pesquisadores observaram, inclusive, uma relação entre a proporção desses grupos e a quantidade de amônia presente em determinados materiais.

Isso significa que a vida veio do espaço?

A descoberta não demonstra a existência de organismos vivos em Ryugu, nem significa que o DNA ou o RNA tenham sido encontrados prontos no asteroide.

O que os cientistas identificaram foram moléculas orgânicas que podem ser produzidas por processos químicos não biológicos. Em outras palavras, elas podem surgir sem a participação de seres vivos.

Entretanto, a presença dessas cinco nucleobases em materiais extraterrestres amplia as evidências de que os componentes químicos necessários à vida podem se formar em diferentes ambientes do Sistema Solar.

Uma possibilidade investigada pela ciência é que asteroides carbonáceos tenham transportado parte dessas substâncias até a Terra primitiva, contribuindo para o conjunto de moléculas disponíveis antes do surgimento dos primeiros sistemas biológicos.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica e editora de saúde do Portal Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação na internet, garantindo que o conteúdo seja sempre baseado em rigor técnico, empatia e evidências científicas de qualidade. Ver perfil no LinkedIn