Bactérias intestinais estão associadas à inflamação do organismo e ao risco de doenças

Bactérias intestinais estão associadas à inflamação do organismo. (Imagem: Jannissimo)

As bactérias que vivem no intestino podem ter uma relação com a saúde muito maior do que se imaginava. Além de participarem da digestão e do aproveitamento de nutrientes, esses microrganismos estão associados à atividade do sistema imunológico e aos níveis de inflamação no organismo.

Uma pesquisa publicada na revista científica Nature Communications encontrou uma associação importante entre a composição da microbiota intestinal, a inflamação sistêmica e o risco de desenvolver doenças ao longo do tempo. Os resultados também sugerem que a idade, sozinha, não explica tão bem essas diferenças entre as pessoas.

A descoberta chama a atenção porque a inflamação crônica de baixo grau está relacionada a diversas condições de saúde. No entanto, os resultados não significam que as bactérias intestinais sejam a única causa dessas doenças.

A microbiota pode revelar sinais que a idade não mostra

O envelhecimento costuma estar associado ao aumento gradual da inflamação no organismo. Esse processo, conhecido como inflammaging, pode ocorrer mesmo sem uma infecção evidente e está relacionado a alterações do sistema imunológico ao longo da vida.

Entretanto, pessoas da mesma idade podem apresentar níveis muito diferentes de inflamação. Para investigar essa variação, pesquisadores analisaram dados de 1.199 adultos com idades entre 20 e 72 anos, considerando a microbiota intestinal, marcadores inflamatórios no sangue e medidas metabólicas e fisiológicas.

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Os resultados indicaram que a composição das bactérias intestinais explicou uma parcela maior das diferenças observadas do que a idade cronológica para 97% das citocinas analisadas e 84% das variáveis fisiológicas avaliadas.

As citocinas são proteínas envolvidas na comunicação entre as células do sistema imunológico. Algumas participam da resposta inflamatória e, quando permanecem elevadas, podem indicar alterações importantes no funcionamento do organismo.

Um perfil de bactérias apareceu associado a maior risco

Comparativo entre os perfis de microbiota intestinal e o risco de doenças. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Entre os resultados, um perfil da microbiota conhecido como enterótipo Bacteroides 2 chamou a atenção. Os participantes que apresentavam esse padrão tinham níveis mais elevados de citocinas pró-inflamatórias e características metabólicas menos favoráveis.

Essas alterações foram observadas inclusive em adultos mais jovens. Segundo as análises dos pesquisadores, esse grupo apresentou características semelhantes às associadas à inflamação do envelhecimento até 37 anos antes de outros perfis de microbiota.

O estudo também encontrou uma associação entre o enterótipo Bacteroides 2 e maior incidência futura de doenças que afetam diferentes sistemas do organismo. A estimativa de risco foi 21% maior em comparação com o grupo de referência utilizado na análise.

Por outro lado, um perfil caracterizado por maior diversidade de bactérias intestinais esteve associado a níveis menores de inflamação e a um risco reduzido de doenças.

Isso não significa, porém, que todas as pessoas com determinado perfil desenvolverão uma doença. Os resultados mostram tendências observadas na população estudada, e não permitem prever individualmente o futuro de cada participante.

Estudo científico publicado em setembro de 2026

A pesquisa foi publicada em 8 de setembro de 2026 na revista Nature Communications. O primeiro autor é Carsten Eriksen, e o trabalho utilizou dados da coorte populacional dinamarquesa DanFunD.

Os pesquisadores também realizaram análises para investigar se os marcadores inflamatórios poderiam explicar parte da associação entre o perfil intestinal Bacteroides 2 e o aparecimento posterior de doenças. Os resultados sugeriram que a inflamação participava parcialmente dessa relação.

Ainda assim, é importante destacar uma limitação: uma associação estatística não comprova causa e efeito. O estudo não demonstra que modificar a microbiota, por si só, evitará doenças, nem estabelece um teste clínico pronto para prever riscos individuais.

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Como cuidar da microbiota intestinal?

Embora ainda sejam necessários estudos para entender como esses perfis influenciam a saúde ao longo dos anos, alguns hábitos favorecem um ambiente intestinal saudável:

  • Consumir fibras de frutas, verduras, legumes, feijões e cereais integrais, conforme a tolerância individual.
  • Variar os alimentos de origem vegetal ao longo da semana.
  • Manter atividade física regular e sono adequado.
  • Evitar o uso de antibióticos sem indicação médica.

Esses hábitos beneficiam a saúde geral, mas não garantem um perfil específico de microbiota nem substituem o acompanhamento médico.

A pesquisa amplia o conhecimento sobre a relação entre o intestino e a inflamação sistêmica. No futuro, compreender melhor essa conexão poderá ajudar a identificar fatores associados ao risco de doenças e a desenvolver estratégias preventivas mais personalizadas.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes