O ginseng, planta conhecida por seu uso tradicional, está sendo investigado pela ciência por possíveis efeitos que vão além de seus compostos mais conhecidos. Um estudo com camundongos identificou alterações relacionadas ao tecido adiposo, às bactérias intestinais e à resposta do organismo aos sinais de saciedade após a administração de pequenas estruturas produzidas pelas células da planta.
Os resultados chamam a atenção porque esses mecanismos participam do controle da ingestão alimentar e do metabolismo. No entanto, existe uma ressalva importante: a pesquisa foi realizada em animais e não comprova que consumir ginseng ajude pessoas a emagrecer.
Pequenas estruturas vegetais chamaram a atenção dos pesquisadores
O estudo investigou as chamadas vesículas extracelulares derivadas do ginseng, pequenas estruturas que podem transportar componentes biológicos e interagir com células do organismo. Elas foram obtidas de Panax ginseng, espécie utilizada na pesquisa.
Durante nove semanas, os cientistas acompanharam camundongos machos submetidos a diferentes dietas. Parte dos animais recebeu alimentação com alto teor de gordura, enquanto outro grupo recebeu a mesma dieta suplementada com as vesículas derivadas do ginseng.
A equipe avaliou características do tecido adiposo, a ingestão alimentar após a administração de um sinal de saciedade, a composição da microbiota intestinal e indicadores de inflamação.
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Entrar no Canal do WhatsAppOs resultados apontaram mudanças em alguns desses parâmetros, mas não demonstram que o ginseng, consumido como chá, pó ou suplemento convencional, produza os mesmos efeitos.
Células de gordura ficaram menores, mesmo sem redução da ingestão energética
Um dos achados foi a diminuição do diâmetro dos adipócitos, células responsáveis por armazenar gordura, nos camundongos que receberam as vesículas. Os pesquisadores também observaram uma normalização da expressão do RNA mensageiro relacionado à leptina no tecido adiposo analisado.
A leptina é um hormônio produzido principalmente pelas células de gordura e participa da comunicação entre o tecido adiposo e o cérebro, contribuindo para a regulação do apetite e do balanço energético.
Apesar dessas alterações, os animais tratados não apresentaram uma redução significativa da ingestão energética em comparação com os que receberam apenas a dieta rica em gordura. Portanto, células adiposas menores não significam, necessariamente, perda de peso.
Esse detalhe é importante para interpretar o estudo sem atribuir ao ginseng um efeito emagrecedor que a pesquisa não demonstrou diretamente.
A resposta aos sinais de saciedade também mudou
Outro resultado envolveu a colecistoquinina (CCK), um hormônio intestinal que participa da digestão e ajuda a sinalizar saciedade após a alimentação.
Nos camundongos alimentados com muita gordura, a resposta de redução da ingestão alimentar após a administração de CCK estava prejudicada. Já os animais que receberam as vesículas derivadas do ginseng apresentaram uma supressão mais evidente da ingestão alimentar diante desse estímulo.
Isso sugere que o tratamento pode ter influenciado a resposta a um sinal biológico envolvido no controle do apetite. Ainda assim, o experimento não permite concluir que o ginseng reduza a fome ou aumente a saciedade em seres humanos.
Microbiota intestinal e inflamação também apresentaram alterações
A análise das bactérias intestinais identificou mudanças na composição da microbiota intestinal dos animais tratados. Houve redução relativa de alguns grupos bacterianos e aumento de outros, incluindo microrganismos dos gêneros Anaerotruncus e Parabacteroides.
Os pesquisadores também observaram uma diminuição da expressão de TNF-α, marcador relacionado à inflamação, no íleo dos camundongos tratados. Entretanto, os níveis plasmáticos da proteína ligadora de lipopolissacarídeo não apresentaram mudanças.
Esses resultados indicam que as vesículas podem estar associadas a alterações em diferentes processos fisiológicos. Contudo, mudanças na abundância de bactérias não são automaticamente benéficas: a interpretação depende do contexto e de estudos adicionais.
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Estudo aponta possibilidades, mas há limites importantes
A pesquisa foi publicada em 18 de outubro de 2026 na revista científica Scientific Reports, com Eunji Jeong como primeira autora. O artigo, intitulado Ginseng-derived extracellular vesicles attenuate adipocyte hypertrophy and modulate gut microbiota and cholecystokinin responsiveness in high-fat diet-fed mice.
Como o experimento envolveu apenas camundongos machos, ainda é necessário investigar se os resultados se repetem em fêmeas e, principalmente, em seres humanos. Também não se deve equiparar as vesículas estudadas a qualquer produto comercial de ginseng.
Em síntese, o trabalho abre uma linha de investigação sobre a relação entre ginseng, tecido adiposo, microbiota e saciedade, mas não estabelece um tratamento para obesidade.
