O cérebro está constantemente tentando antecipar o que acontecerá em seguida. Ao perceber um perigo, por exemplo, ele compara o que esperava encontrar com o que realmente acontece e ajusta suas respostas para evitar ameaças futuras. Agora, pesquisadores identificaram evidências de que uma estrutura cerebral pouco conhecida participa desse processo: o claustro, uma região que pode ajudar a acompanhar incertezas e erros durante o aprendizado.
Uma estrutura escondida que participa das previsões do cérebro
Localizado profundamente no cérebro, o claustro é uma fina estrutura de neurônios conectada a diversas regiões do córtex cerebral. Apesar dessas conexões abrangentes, suas funções ainda não são totalmente compreendidas.
Uma das hipóteses é que essa região ajude a coordenar informações entre diferentes áreas cerebrais, contribuindo para que o organismo interprete situações e adapte o comportamento conforme o contexto. As novas descobertas indicam que sua atuação pode envolver processos mais complexos do que o simples processamento de estímulos sensoriais.
Como os neurônios identificam incertezas e erros
Para investigar essa possibilidade, cientistas registraram a atividade de neurônios individuais do claustro em seres humanos durante uma tarefa de aprendizado aversivo, processo pelo qual uma pessoa aprende a evitar situações associadas a resultados negativos.
O experimento foi apresentado como um jogo de computador. Os participantes precisavam conduzir uma nave espacial e desviar de asteroides, identificando os caminhos mais seguros para evitar colisões e obter pontos.
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Entrar no Canal do WhatsAppA atividade cerebral também foi registrada em duas outras regiões: o córtex cingulado anterior, relacionado ao controle cognitivo e ao monitoramento de situações relevantes, e a amígdala, conhecida por sua participação no processamento emocional, especialmente em situações de ameaça.
Publicado em 6 de outubro de 2026 na revista científica Nature Neuroscience, o estudo liderado por Mingyue Hu utilizou modelos computacionais para estimar dois processos importantes: a incerteza subjetiva e o erro de previsão.
A incerteza ocorre quando o cérebro não consegue determinar com segurança qual resultado esperar. Já o erro de previsão corresponde à diferença entre aquilo que era esperado e o que efetivamente aconteceu. Se uma rota parecia segura, mas terminou em colisão, por exemplo, o resultado inesperado pode exigir uma atualização das expectativas.
Claustro e córtex cingulado têm funções diferentes
Os resultados mostraram que neurônios do claustro e do córtex cingulado anterior respondiam de maneira organizada aos acontecimentos do jogo. As duas regiões também apresentaram sinais relacionados à incerteza e aos erros de previsão, embora esses sinais variassem conforme o momento da tarefa.
Durante o intervalo entre tentativas, sinais de incerteza foram identificados no córtex cingulado anterior, mas não da mesma forma no claustro. Já durante a esquiva ativa dos asteroides, ambas as regiões apresentaram atividade associada à incerteza e aos erros de previsão.
Além disso, as representações dos resultados ligados às ações diferiram entre as duas áreas. A amígdala, por sua vez, apresentou pouca modulação relacionada às variáveis cognitivas analisadas.
Essas diferenças sugerem que as regiões não desempenham exatamente o mesmo papel. Enquanto o córtex cingulado anterior pode contribuir para monitorar a confiabilidade das expectativas, o claustro parece participar do acompanhamento de informações relevantes quando o resultado de uma ação exige uma atualização do que o cérebro esperava.
O que essa descoberta revela sobre o aprendizado
Os resultados oferecem evidências diretas de que o claustro humano acompanha informações cognitivas que não podem ser explicadas apenas pelos estímulos recebidos pelos sentidos. Isso amplia a compreensão sobre como o cérebro avalia situações incertas e modifica suas expectativas diante de acontecimentos inesperados.
Entretanto, o estudo envolveu sete pessoas com epilepsia resistente a medicamentos, submetidas a monitoramento cerebral invasivo por razões clínicas. Portanto, os resultados precisam ser interpretados considerando as características específicas desse grupo.
A pesquisa não demonstra que o claustro seja responsável sozinho pelo aprendizado ou pela percepção consciente do perigo. Ela indica que essa estrutura participa de processos neurais envolvidos na avaliação de incertezas e na identificação de resultados inesperados, oferecendo novas pistas sobre como o cérebro adapta o comportamento a ambientes em constante mudança.
