Exame de sangue ajuda a avaliar o estágio e a evolução do Alzheimer

Exame de sangue pode ajudar a avaliar a evolução do Alzheimer. (Imagem: Pexels)

Identificar o estágio da doença de Alzheimer e estimar como ela pode evoluir é um dos grandes desafios da medicina. Embora exames de imagem e avaliações cognitivas sejam importantes, pesquisadores investigam maneiras de obter informações sobre o cérebro por meio de procedimentos mais simples. Nesse cenário, um exame de sangue capaz de identificar proteínas associadas à doença pode ajudar a avaliar seu estágio e estimar o declínio cognitivo.

Uma pesquisa publicada em outubro de 2026 investigou biomarcadores relacionados à proteína tau, que participa de alterações características do Alzheimer. Os resultados indicam que determinadas formas dessa proteína presentes no plasma sanguíneo podem fornecer informações sobre o avanço das alterações cerebrais e sua relação com a memória e outras funções cognitivas.

A descoberta abre perspectivas para o acompanhamento da doença, embora esses exames ainda precisem ser interpretados dentro de uma avaliação médica completa.

Proteínas no sangue podem revelar diferentes fases do Alzheimer

A doença de Alzheimer está associada ao acúmulo anormal de duas proteínas no cérebro: beta-amiloide e tau. Enquanto a beta-amiloide forma depósitos conhecidos como placas, a proteína tau pode se agrupar em estruturas fibrilares dentro dos neurônios, comprometendo seu funcionamento.

Essas alterações não aparecem necessariamente ao mesmo tempo. Por isso, identificar biomarcadores relacionados a diferentes fases do processo pode ajudar os profissionais de saúde a compreender melhor o estágio biológico da doença.

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O estudo investigou duas formas específicas de tau detectáveis no sangue: eMTBR-tau243 e p-tau205. Os pesquisadores também avaliaram a p-tau217, outro biomarcador estudado na investigação do Alzheimer.

A proposta é utilizar essas informações para distinguir etapas da doença com maior precisão. Em vez de observar apenas a presença de alterações associadas ao Alzheimer, a análise procura identificar sinais relacionados à evolução das mudanças cerebrais.

Isso é importante porque o estágio biológico da doença nem sempre corresponde diretamente à intensidade dos sintomas. Duas pessoas podem apresentar alterações cerebrais semelhantes e, ainda assim, demonstrar diferenças na memória, no raciocínio e na capacidade de realizar tarefas cotidianas.

Um biomarcador se destacou na relação com a perda de memória

Novo biomarcador eMTBR-tau243 auxilia na avaliação do Alzheimer. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Publicado em 19 de outubro de 2026, na revista científica Nature Communications, o estudo foi liderado por Sohyun Yim e colaboradores. A equipe analisou biomarcadores sanguíneos em uma população bem caracterizada, utilizando também exames de imagem cerebral para investigar a relação entre as proteínas e as alterações associadas ao Alzheimer.

Entre os resultados, a eMTBR-tau243 apresentou uma associação particularmente forte com o acúmulo de tau detectado por exames de imagem e com o desempenho cognitivo dos participantes.

Os pesquisadores também observaram que esse biomarcador forneceu informações úteis para avaliar mudanças cognitivas ao longo do tempo. Isso sugere que sua medição pode contribuir não apenas para compreender o estágio da doença, mas também para estimar sua evolução.

Outro resultado relevante envolveu a combinação de p-tau217 e eMTBR-tau243 em um sistema de classificação biológica. Essa estratégia apresentou boa concordância com o estadiamento baseado em exames de imagem que identificam a proteína tau no cérebro.

Na prática, uma abordagem desse tipo pode ajudar a tornar a avaliação da doença mais acessível. Entretanto, os resultados não significam que um único exame de sangue consiga determinar com certeza quando os sintomas vão começar ou a velocidade com que cada paciente perderá funções cognitivas.

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O exame já pode substituir outros testes?

Apesar do potencial, é importante diferenciar uma descoberta científica de uma ferramenta já consolidada na rotina clínica.

Os biomarcadores sanguíneos podem complementar a investigação do Alzheimer, mas sua interpretação depende de fatores como o método laboratorial utilizado, o quadro clínico e os demais resultados da avaliação médica.

Além disso, um resultado alterado não determina sozinho o diagnóstico, o estágio clínico ou o prognóstico individual. Os sintomas, o histórico de saúde e outros exames continuam sendo importantes para orientar as decisões médicas.

A pesquisa também não demonstra que medir essas proteínas, por si só, seja capaz de retardar a doença. O principal avanço está na possibilidade de obter informações mais detalhadas sobre as alterações biológicas associadas ao Alzheimer.

Com novos estudos e validações clínicas, métodos desse tipo poderão contribuir para selecionar pacientes para tratamentos específicos e acompanhar a resposta terapêutica.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes