Um sistema estelar relativamente pequeno pode estar escondendo um dos ambientes mais extremos da Via Láctea. Astrônomos identificaram o primeiro candidato a microblazar galáctico, um tipo raro de sistema no qual um buraco negro de massa estelar lança um jato de partículas praticamente na direção da Terra.
O mais impressionante está além do próprio buraco negro. Os pesquisadores encontraram indícios de que esse jato atinge uma nuvem molecular e produz uma região capaz de acelerar partículas a energias extraordinárias, possivelmente chegando à escala de petaelétron-volts.
Um blazar em miniatura na nossa galáxia
Blazares são normalmente associados a buracos negros supermassivos localizados no centro de outras galáxias. Quando um dos seus jatos aponta aproximadamente para a Terra, os efeitos desse feixe relativístico podem se tornar especialmente intensos.
O novo objeto, identificado como IRAS 18293−0941, apresenta uma versão muito menor desse fenômeno. O sistema reúne um buraco negro com cerca de 10 vezes a massa do Sol e uma estrela quente e massiva. Os dois objetos completam uma órbita em aproximadamente 11 dias.
O buraco negro captura parte do material da estrela. Antes de alcançar o horizonte de eventos, esse gás forma um disco de acreção, enquanto parte da matéria é lançada para o espaço na forma de jatos extremamente energéticos. Quando um desses jatos está alinhado próximo à nossa linha de visão, surge o chamado microblazar.
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Entrar no Canal do WhatsAppO encontro que transforma matéria em energia
A descoberta se torna ainda mais interessante quando o jato deixa a região imediata do sistema. Observações em diferentes comprimentos de onda indicaram que o fluxo atravessa primeiro uma área de aproximadamente 100 anos-luz, modificando o meio interestelar ao seu redor. Depois, ele encontra uma nuvem molecular mais densa.
É nesse ponto que pode ocorrer uma verdadeira colisão cósmica. O impacto do jato com o material da nuvem produz uma região de interação onde partículas podem ser aceleradas a velocidades próximas à da luz. Além disso, a área coincide com uma emissão de raios gama de altíssima energia, associada a uma fonte conhecida como LHAASO J1831−1007u*.
O estudo foi publicado em 7 de setembro de 2026 na revista Astronomy & Astrophysics, com Josep Martí como primeiro autor. A análise combinou observações de rádio, infravermelho, ópticas, raios X e raios gama para investigar o sistema e sua possível conexão com partículas de energia ultra-alta.
Um acelerador muito maior que qualquer máquina terrestre
Partículas com energias na faixa de petaelétron-volts estão entre as mais extremas já observadas no ambiente cósmico. A origem desses chamados raios cósmicos ultraenergéticos permanece uma questão importante da astrofísica.
Por isso, IRAS 18293−0941 chama tanta atenção. Se a associação entre o jato e a fonte de alta energia for confirmada por novas observações, o sistema poderá ajudar a explicar como partículas cósmicas alcançam energias tão elevadas.
A pesquisa ainda trata essa conexão como uma possibilidade que precisa ser investigada. Novas observações deverão examinar com maior precisão a região onde o jato encontra a nuvem molecular.
Além de acelerar partículas, essa interação pode aquecer e ionizar o material da nuvem, oferecendo uma oportunidade para estudar como jatos de buracos negros influenciam o gás interestelar e processos relacionados à formação de estrelas na Via Láctea.
