Cães que esmagavam ossos deixaram rastros em meio às cinzas de um supervulcão 

Pegadas antigas revelam cães que circulavam pelo bebedouro em Nebraska. (Imagem: Cheyenne Rowe)

Há cerca de 12 milhões de anos, uma enorme erupção vulcânica lançou cinzas por uma extensa área da América do Norte. Em Nebraska, esse material acabou preservando uma cena extraordinária: centenas de animais morreram em torno de um antigo bebedouro, deixando para trás um dos registros fósseis mais impressionantes do Mioceno.

Novas pistas estão ajudando os pesquisadores a reconstruir a presença de canídeos que esmagavam ossos, integrantes da extinta subfamília Borophaginae. Em vez de encontrar seus esqueletos, os cientistas estão seguindo os rastros deixados por esses predadores e necrófagos.

Pegadas preservadas contam uma história diferente

No Ashfall Fossil Beds, pesquisadores encontraram pequenas pegadas preservadas em camadas associadas ao antigo ambiente aquático. A descoberta é especialmente interessante porque grandes carnívoros são raros entre os fósseis do local.

As marcas indicam que esses animais estavam circulando pela região enquanto as cinzas vulcânicas ainda se acumulavam. Ao mesmo tempo, os restos de rinocerontes, cavalos e camelos encontrados no depósito apresentam marcas compatíveis com mordidas de canídeos.

A interpretação mais provável é que esses animais tenham aproveitado os cadáveres deixados pelo desastre. Como não foram encontrados esqueletos dos grandes canídeos associados às pegadas, ainda não é possível determinar com certeza se eles sobreviveram ao episódio ou simplesmente deixaram a área antes que fossem soterrados.

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Um bebedouro virou uma armadilha mortal

O local preservado em Nebraska não era originalmente um cemitério. As evidências indicam que se tratava de um ponto de água sazonal, onde diferentes espécies se reuniam para beber, se refrescar e provavelmente se alimentar.

Quando a cinza vulcânica começou a cair, os animais maiores tiveram dificuldade para escapar das consequências. As partículas extremamente finas podiam penetrar profundamente no sistema respiratório, enquanto a cobertura progressiva do solo também eliminava fontes de alimento.

Assim, o ambiente acabou funcionando como uma espécie de cápsula do tempo natural, preservando ossos, pegadas e outros vestígios de comportamento.

Dentes e fezes fossilizadas entregam o cardápio

Fezes de carnívoros preservam ossos e pelos após a alimentação. (Imagem: Xiaoming Wang)

As evidências não terminam nas pegadas. Pesquisadores também encontraram coprólitos, que são fezes fossilizadas, contendo fragmentos de ossos.

Esse tipo de material é particularmente valioso porque permite investigar não apenas quem estava presente, mas também como esses animais se alimentavam.

Um estudo publicado na revista eLife em 22 de maio de 2018, liderado pelo paleontólogo Xiaoming Wang, analisou coprólitos de Borophagus parvus e encontrou evidências diretas de consumo intenso de ossos. A pesquisa também mostrou características anatômicas compatíveis com uma alimentação especializada em partes ósseas.

Esses resultados ajudam a interpretar os vestígios encontrados em Ashfall, embora o estudo de 2018 não tenha sido realizado especificamente sobre os novos rastros de Nebraska.

Os cães antigos eram diferentes dos atuais

Apesar do apelido, os Borophaginae não eram cães domésticos. Eles pertenciam à linhagem dos canídeos, mas representavam um ramo evolutivo extinto que ocupou diferentes nichos ecológicos na América do Norte.

Algumas espécies desenvolveram crânios robustos e dentes especializados. Estudos biomecânicos indicam que determinados borofagíneos possuíam adaptações capazes de suportar grandes forças durante a mordida e o processamento de ossos.

Por isso, os vestígios encontrados em Ashfall oferecem uma oportunidade rara de observar esses animais em ação, mesmo sem um esqueleto completo.

Fóssil ainda guarda muitas respostas

O Ashfall Fossil Beds continua sendo escavado, e os pesquisadores utilizam ferramentas extremamente delicadas para retirar a cinza que cobre os fósseis. Além disso, tecnologias de escaneamento 3D estão sendo empregadas para registrar pegadas e outras evidências sem alterar o depósito.

O mais intrigante é que a ausência dos esqueletos dos canídeos não encerra a história. Novas escavações, inclusive em possíveis tocas fossilizadas, ainda podem revelar restos corporais desses animais.

Enquanto isso, cada pegada, marca de dente ou coprólito funciona como uma peça de um quebra-cabeça de 12 milhões de anos, permitindo reconstruir como predadores e presas reagiram a uma das maiores catástrofes ambientais registradas naquele antigo ecossistema.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes