Sistema com quatro estrelas protagoniza eclipses que desafiam a astronomia 

Ilustração mostra quatro estrelas formando um sistema quádruplo. (Imagem: Fala Ciência)

Um sistema formado por quatro estrelas acaba de revelar um comportamento extremamente raro. Localizado a cerca de milhares de anos-luz da Terra, o TIC 433545934 reúne dois pares de estrelas que orbitam separadamente e, ao mesmo tempo, giram em torno um do outro.

O mais surpreendente é que os astrônomos observaram um par inteiro passando na frente do outro, provocando uma sequência incomum de quedas no brilho. Esse tipo de evento nunca havia sido confirmado em um sistema quádruplo com essa configuração.

A descoberta oferece uma nova oportunidade para entender como sistemas com várias estrelas se organizam e evoluem ao longo do tempo.

Uma família estelar dividida em dois pares

As quatro estrelas do TIC 433545934 estão organizadas em dois sistemas binários. Em cada dupla, as estrelas ficam muito próximas e orbitam uma à outra.

Porém, existe uma segunda camada nessa organização. Os dois pares também estão ligados pela gravidade e percorrem uma órbita muito maior.

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Esse arranjo é conhecido pelos astrônomos como sistema quádruplo 2+2.

Além disso, as órbitas estão quase perfeitamente alinhadas. Essa característica é importante porque permite que as estrelas passem diante umas das outras quando observadas da Terra.

Quando isso acontece, parte da luz é bloqueada e o brilho do sistema diminui temporariamente. É assim que os chamados eclipses estelares podem ser identificados mesmo a enormes distâncias.

O eclipse que chamou a atenção dos astrônomos

Órbita e eclipse unidirecional do sistema quádruplo TIC 290061484. (Imagem: Fala Ciência)

Cada par do sistema apresenta seus próprios eclipses. Entretanto, os pesquisadores encontraram algo ainda mais incomum.

Em determinado momento da órbita maior, um dos pares passa diante do outro. Como cada par contém duas estrelas, o fenômeno produz uma sequência de alterações no brilho que pode ser descrita como um eclipse entre os dois sistemas binários.

O comportamento também apresenta uma peculiaridade: o eclipse acontece apenas em uma direção. O par B consegue passar diante do par A, mas o contrário não ocorre.

A explicação está na forma da grande órbita percorrida pelos dois pares. Em vez de ser quase circular, ela é bastante alongada. Essa geometria faz com que os pares se posicionem de maneira favorável ao eclipse apenas em determinado momento de sua trajetória.

TESS encontrou a assinatura no brilho das estrelas

A descoberta contou com dados do Telescópio Espacial TESS, da NASA, que monitora estrelas procurando pequenas mudanças em seu brilho.

Quando uma estrela passa na frente de outra, o telescópio registra uma queda na quantidade de luz recebida. Ao comparar essas variações durante meses ou anos, os astrônomos conseguem descobrir os períodos orbitais e até identificar sistemas estelares muito complexos.

No caso do TIC 433545934, os pesquisadores também utilizaram observações terrestres e dados de levantamentos astronômicos anteriores.

O estudo foi liderado por Tamás Borkovits, do Observatório Astronômico de Baja, na Hungria. O trabalho foi disponibilizado no arXiv em 13 de agosto de 2026 e aceito para publicação na revista Astronomy & Astrophysics. 

Quatro estrelas que ainda vão mudar

A história desse sistema está longe de terminar. Os cálculos indicam que, em aproximadamente 152 milhões de anos, as estrelas mais massivas de cada par poderão crescer significativamente.

Quando isso acontecer, uma delas poderá atingir uma região chamada lóbulo de Roche, permitindo que material seja transferido para sua companheira.

Esse processo pode modificar completamente as características das estrelas e alterar a configuração do sistema.

Por enquanto, o TIC 433545934 permanece como um exemplo extraordinário de sistema estelar quádruplo, permitindo estudar como a gravidade coordena os movimentos de quatro estrelas ao mesmo tempo.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes