Baratas ciborgues usam inteligência artificial para atravessar obstáculos com mais eficiência 

Ilustração de barata ciborgue usa IA para reconhecer diferentes tipos de terreno. (Imagem: Fala Ciência)

Uma barata capaz de escalar obstáculos e receber comandos de uma inteligência artificial parece saída de um filme de ficção científica. Entretanto, essa tecnologia já está sendo estudada como uma possível ferramenta para explorar locais onde robôs tradicionais enfrentariam dificuldades.

Pesquisadores da Universidade de Osaka, no Japão, e da Universitas Diponegoro, na Indonésia, desenvolveram um sistema que permite a um inseto ciborgue reconhecer diferentes tipos de terreno em tempo real e adaptar sua movimentação. A proposta combina a capacidade física natural da barata com sensores, estimulação eletrônica e inteligência artificial.

O estudo foi publicado na revista científica Device em 20 de agosto de 2026, liderado por Mochammad Ariyanto.

Barata não precisa fugir dos obstáculos

Os sistemas convencionais de navegação costumam ensinar robôs a evitar obstáculos. Para uma máquina rígida, essa estratégia faz sentido. Porém, uma barata tem uma vantagem que um pequeno robô pode não possuir: consegue subir, atravessar superfícies irregulares e contornar terrenos complicados usando seu próprio corpo.

Quando os pesquisadores aplicaram estratégias convencionais aos insetos ciborgues, surgiu um problema. O sistema tentava fazer a barata mudar de direção mesmo quando ela já estava escalando um obstáculo que poderia atravessar naturalmente.

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O resultado era uma movimentação mais lenta, com desvios desnecessários.

A nova abordagem foi criada justamente para aproveitar essa capacidade biológica.

Inteligência artificial identifica o terreno em tempo real

IA em robô inseto identifica terrenos com 92% de precisão. (Imagem: Fala Ciência)

O sistema utiliza um modelo de perceptron multicamadas, uma arquitetura de inteligência artificial capaz de reconhecer padrões nos dados recebidos pelos sensores instalados no inseto.

A tecnologia foi treinada para diferenciar quatro situações:

  • Superfície plana
  • Subida
  • Descida
  • Buraco

Essa classificação permite que o sistema escolha uma estratégia de movimentação mais adequada para cada situação. Em vez de simplesmente ordenar que o inseto desvie, o controlador pode permitir que ele utilize sua capacidade natural de escalada.

Nos testes, o classificador alcançou 92% de precisão na avaliação offline, segundo os pesquisadores. A identificação do terreno também permitiu reduzir comandos de direção considerados desnecessários e favorecer um deslocamento mais contínuo.

O corpo da barata vira parte do robô

O aspecto mais curioso da tecnologia está justamente naquilo que normalmente seria considerado uma limitação: o robô não é inteiramente artificial.

Os chamados insetos ciborgues combinam um organismo vivo com componentes eletrônicos. Nesse caso, a barata fornece características locomotoras que seriam difíceis de reproduzir em um robô minúsculo, enquanto a eletrônica permite controlar determinados movimentos.

Essa combinação é chamada pelos pesquisadores de inteligência física biohíbrida. A ideia é fazer com que a inteligência artificial compreenda o ambiente e, ao mesmo tempo, aproveite as habilidades naturais do organismo.

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De insetos ciborgues a missões de resgate

A tecnologia ainda está em estágio de pesquisa e não significa que baratas ciborgues estejam prontas para atuar em operações reais. Porém, os possíveis usos são interessantes.

Por serem pequenas e capazes de atravessar terrenos irregulares, plataformas desse tipo poderiam futuramente ser investigadas para:

Busca e resgate: exploração de áreas estreitas ou parcialmente destruídas.

Inspeção: acesso a locais de infraestrutura difíceis para robôs convencionais.

Exploração: navegação em ambientes complexos, como estruturas danificadas ou espaços confinados.

A grande vantagem seria combinar baixo consumo de energia, mobilidade natural e controle inteligente.

O estudo mostra, portanto, uma mudança interessante na maneira de pensar a robótica. Em vez de tentar construir uma máquina capaz de reproduzir cada habilidade de um animal, os pesquisadores estão explorando outra possibilidade: usar as próprias capacidades do organismo e acrescentar inteligência artificial para ampliar seu potencial.

Se essa abordagem continuar avançando, insetos ciborgues poderão se tornar uma das formas mais incomuns de robótica bioinspirada, unindo biologia e tecnologia em máquinas pequenas, adaptáveis e capazes de enfrentar ambientes que ainda representam um desafio para os robôs convencionais.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes