Medicamento para pressão pode estar ligado a maior risco renal em diabéticos 

Remédios para pressão exigem avaliação individual em diabéticos (Imagem: Pixabay via Canva)

Controlar a pressão arterial é uma das medidas mais importantes para preservar os rins de pessoas com diabetes tipo 2. Porém, uma análise recente trouxe um alerta que merece atenção: determinados medicamentos anti-hipertensivos podem estar associados a resultados renais menos favoráveis justamente em pacientes que já utilizam terapias consideradas protetoras dos rins.

A pesquisa avaliou os chamados bloqueadores dos canais de cálcio di-hidropiridínicos (DCCBs), uma classe utilizada com frequência no tratamento da hipertensão. Entre os medicamentos desse grupo estão anlodipino, nifedipino, felodipino, lercanidipino e manidipino. Entre pessoas com diabetes tipo 2 que também recebiam medicamentos que atuam no sistema renina-angiotensina e inibidores de SGLT2, o uso de DCCBs esteve associado a um risco 33% maior de eventos renais importantes.

Isso, entretanto, não significa que esses remédios provoquem insuficiência renal. O desenho do estudo não permite estabelecer uma relação de causa e efeito.

Uma combinação de tratamentos que chamou a atenção dos pesquisadores

A análise foi publicada em 8 de maio de 2026 na revista Kidney Medicine, tendo Timna Agur como primeira autora. Os pesquisadores utilizaram dados de saúde de 31.031 adultos com diabetes tipo 2, acompanhados entre 2016 e 2021.

Todos os participantes recebiam simultaneamente um inibidor do sistema renina-angiotensina (SRA) e um inibidor de SGLT2, medicamentos que possuem papel importante na proteção cardiovascular e renal em determinados pacientes com diabetes.

Durante uma mediana de aproximadamente 3,5 anos de acompanhamento, 482 participantes apresentaram um evento renal importante.

Depois dos ajustes estatísticos para diferenças entre os grupos, os pesquisadores encontraram uma associação entre o uso de DCCBs e maior risco desses eventos:

  • 33% maior risco de um evento renal adverso importante;
  • intervalo de confiança de 95% entre 1,03 e 1,73;
  • o resultado permaneceu significativo após considerar a morte como evento concorrente.

O desfecho considerado grave incluía uma queda de pelo menos 40% na taxa de filtração glomerular estimada ou evolução para insuficiência renal que exigisse terapia de substituição, como diálise.

Por que os rins podem ser particularmente vulneráveis no diabetes?

Infográfico sobre a relação entre o diabetes, a pressão e os rins. (Imagem: Fala Ciência)

A doença renal diabética surge quando a exposição prolongada à glicose elevada provoca alterações nos pequenos vasos e nas estruturas responsáveis pela filtragem do sangue.

Além disso, a hipertensão arterial pode aumentar ainda mais a sobrecarga sobre os glomérulos, acelerando a perda da função renal. Por isso, escolher medicamentos que controlem adequadamente a pressão sem comprometer a proteção dos rins é uma parte importante do tratamento.

Os DCCBs, como classe, atuam principalmente promovendo relaxamento dos vasos sanguíneos, facilitando a redução da pressão arterial. A hipótese levantada pelos pesquisadores é que alguns efeitos sobre a circulação dentro dos próprios rins poderiam, em determinadas circunstâncias, influenciar a pressão exercida sobre os glomérulos.

Essa possibilidade ainda precisa ser investigada em estudos específicos e não deve ser interpretada como uma prova de que o mecanismo seja responsável pelo resultado observado.

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O resultado não significa que o medicamento deva ser interrompido

Esse é provavelmente o ponto mais importante para quem utiliza algum bloqueador de canal de cálcio.

O estudo foi observacional e retrospectivo, portanto existem fatores que podem influenciar os resultados mesmo após os ajustes realizados pelos pesquisadores. Além disso, a própria publicação destaca limitações relacionadas à caracterização da exposição aos medicamentos e à possibilidade de fatores de confusão residuais.

Assim, os resultados não justificam a suspensão ou troca de um anti-hipertensivo por conta própria.

Na prática, pessoas com diabetes, hipertensão ou doença renal crônica precisam ter a terapia individualizada. Pressão arterial, função renal, albuminúria, outros medicamentos utilizados e histórico cardiovascular são alguns dos fatores que podem influenciar a escolha do tratamento.

A descoberta é relevante justamente porque os pacientes analisados já recebiam terapias modernas com potencial proteção renal. Por isso, os autores defendem novas pesquisas, especialmente estudos prospectivos e ensaios clínicos randomizados, para determinar se a associação observada representa realmente um efeito do medicamento ou se pode ser explicada por outros fatores.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn