O gelo marinho do Ártico enfrenta uma ameaça que não depende apenas do aumento das temperaturas. Quando vários ciclones atingem a mesma região em rápida sucessão, o impacto sobre a cobertura congelada pode ser muito maior do que o provocado por uma única tempestade.
Esses episódios, chamados de aglomerados de ciclones, estão se tornando especialmente importantes em um Ártico onde o gelo já apresenta menor espessura, maior mobilidade e menor resistência às forças atmosféricas e oceânicas.
Uma análise de dados que cobre mais de quatro décadas mostra que a sequência de tempestades pode alterar significativamente a extensão do gelo marinho e, consequentemente, aumentar a exposição das regiões costeiras às ondas e às tempestades.
Quando uma tempestade encontra outra
Um ciclone isolado já consegue movimentar grandes placas de gelo. Porém, quando outro sistema de baixa pressão chega pouco depois, o gelo não tem tempo suficiente para se recuperar.
Os pesquisadores identificaram esse padrão ao analisar dados meteorológicos e imagens de satélite entre 1979 e 2024. A estratégia permitiu acompanhar o estado do gelo antes e depois da passagem de conjuntos de ciclones.
Durante o inverno, os ventos intensos podem quebrar a superfície congelada e separar grandes placas de gelo. Normalmente, as aberturas formadas na camada congelada voltam a fechar em poucos dias. Entretanto, a chegada sucessiva de novas tempestades prolonga a movimentação e dificulta esse processo. Assim, o gelo permanece fragmentado por mais tempo.
O verão deixa o gelo ainda mais vulnerável
Nos meses mais quentes, os mecanismos são diferentes, mas o resultado também pode ser preocupante. Os ciclones podem empurrar placas de gelo para regiões onde elas se acumulam e deixam áreas anteriormente cobertas mais expostas. Além disso, as tempestades transportam massas de ar quente para o Ártico.
Existe ainda outro processo importante: a movimentação provocada pelos ciclones pode favorecer a chegada de água relativamente mais quente das camadas profundas do oceano à superfície. Esse calor adicional pode acelerar o derretimento do gelo.
O efeito é particularmente relevante no final da temporada de derretimento, quando a cobertura congelada já está naturalmente mais reduzida.
A sequência de tempestades muda o resultado
O estudo liderado por Lars Aue, publicado na revista Nature Communications em 2026, encontrou uma diferença significativa entre ciclones isolados e agrupamentos de tempestades.
Em média, um agrupamento contém cerca de 2,5 ciclones. Quando esses sistemas atingem o gelo em sequência, a redução da cobertura de gelo marinho pode ser aproximadamente duas vezes maior do que aquela associada a sistemas isolados.
Além disso, o impacto pode persistir por cerca de 2,5 vezes mais tempo. A intensidade do efeito varia conforme a região e a época do ano. Em algumas áreas, o impacto dos agrupamentos pode ser ampliado em até sete vezes em comparação com situações menos favoráveis.
Um ciclo que pode deixar o Ártico ainda mais exposto
Existe uma relação preocupante entre o aquecimento do Ártico e a ação desses ciclones. À medida que o gelo marinho fica mais fino e fragmentado, torna-se mais fácil para os ventos e as ondas movimentarem as placas. Isso pode aumentar a capacidade das tempestades de provocar novas perdas de gelo.
O processo cria uma possível retroalimentação climática: gelo mais frágil favorece maiores impactos das tempestades, enquanto a redução da cobertura congelada deixa o sistema ainda mais vulnerável.
As consequências não ficam restritas ao oceano. O gelo marinho funciona como uma espécie de barreira natural contra ondas e tempestades. Com seu recuo, comunidades costeiras do Ártico podem ficar mais expostas à erosão e aos eventos extremos.
O problema ganha outra dimensão porque muitas dessas regiões também enfrentam o degelo do permafrost, que reduz ainda mais a estabilidade das áreas costeiras.
Com a continuidade do aquecimento global, compreender como os ciclones se agrupam e interagem com o gelo será essencial para prever a evolução do Ártico e de suas regiões costeiras.
