O oceano está aquecendo em silêncio e isso pode atingir a saúde humana 

Ondas de calor marinhas podem ameaçar alimentos, saúde mental e segurança de comunidades costeiras. (Imagem: Fala Ciência)

Durante muito tempo, as ondas de calor marinhas foram tratadas principalmente como um problema dos oceanos. O fenômeno, porém, pode estar muito mais próximo das pessoas do que parece. Quando a temperatura do mar permanece excepcionalmente elevada por vários dias ou semanas, as consequências podem ultrapassar os limites da água e alcançar a alimentação, a economia, a saúde física e o bem-estar psicológico de comunidades inteiras.

Esses episódios estão se tornando mais frequentes, intensos e prolongados em um planeta que aquece. Além de provocar mortalidade de organismos marinhos, branqueamento de corais e alterações na pesca, o calor extremo do oceano pode desencadear uma sequência de impactos capazes de chegar diretamente à população humana.

O calor começa no mar, mas não termina nele

O oceano funciona como um gigantesco regulador climático. Por isso, alterações extremas em sua temperatura podem modificar processos atmosféricos e contribuir para condições meteorológicas mais severas.

Esse efeito pode aumentar a exposição de populações costeiras a tempestades, inundações e outros eventos extremos, elevando riscos de ferimentos, perdas materiais, deslocamentos e interrupção de serviços essenciais.

Há ainda uma conexão menos evidente. O aquecimento anormal da água pode favorecer alterações nos ecossistemas marinhos e criar condições para proliferações de algas nocivas. Algumas espécies produzem toxinas capazes de contaminar organismos utilizados na alimentação humana.

Assim, um fenômeno que começa como uma alteração física no oceano pode terminar envolvendo segurança alimentar e saúde pública.

O prato também pode sentir o impacto

Milhões de pessoas dependem direta ou indiretamente dos oceanos para obter alimento e renda. Quando uma onda de calor marinha altera a distribuição, reprodução ou sobrevivência de espécies, comunidades pesqueiras podem enfrentar quedas na disponibilidade de recursos. Os efeitos podem aparecer em diferentes níveis:

  • redução da oferta de frutos do mar;
  • alterações na produtividade pesqueira e aquícola;
  • risco de contaminação por toxinas produzidas por algas;
  • perda de renda para comunidades costeiras;
  • aumento da vulnerabilidade alimentar.

Portanto, o impacto não depende necessariamente de uma pessoa entrar em contato com a água aquecida. As consequências podem chegar à população por meio da cadeia alimentar e da economia.

Uma ameaça que também afeta a mente

Existe ainda uma dimensão menos visível. Para comunidades que possuem uma relação econômica, cultural ou recreativa profunda com o oceano, a degradação dos ambientes marinhos pode provocar ansiedade, tristeza, frustração e sensação de perda.

A destruição de habitats, a redução de estoques pesqueiros e episódios de proliferação de algas podem afetar pessoas cuja identidade e sustento estão ligados ao ambiente costeiro.

Em 2025, por exemplo, episódios de proliferação de algas tóxicas no sul da Austrália foram associados a problemas respiratórios e manifestações de sofrimento psicológico, incluindo ecoansiedade e sintomas relacionados ao estresse ambiental.

O problema ganha uma dimensão ainda maior quando a degradação ambiental ameaça simultaneamente renda, alimentação, saúde e identidade cultural.

A saúde pública precisa olhar para o oceano

Uma análise liderada por Laura J. Falkenberg, publicada na revista Nature Sustainability em 2026, examinou justamente essas conexões e defendeu que os impactos das ondas de calor marinhas sejam incorporados ao planejamento de saúde pública. O estudo, intitulado Recognizing the human health impacts of marine heatwaves, mostra que os efeitos do fenômeno podem ocorrer por diferentes caminhos e se acumular ao longo do tempo. A preparação pode envolver:

  • integração de previsões de ondas de calor marinhas aos sistemas de alerta;
  • monitoramento de algas potencialmente tóxicas;
  • acompanhamento da segurança dos frutos do mar;
  • planejamento para comunidades dependentes da pesca;
  • integração entre pesquisadores do oceano, profissionais de saúde e gestores ambientais.

Essa abordagem permite agir antes que os impactos se transformem em crises. Com o avanço do aquecimento global, a saúde dos oceanos e a saúde humana ficam cada vez mais conectadas. Uma alteração de temperatura aparentemente restrita ao ambiente marinho pode desencadear efeitos que chegam à mesa, ao trabalho, às cidades costeiras e também à saúde mental de quem depende do mar.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes