Bebês do Ozempic: Por que tantas mulheres estão engravidando usando canetas emagrecedoras? 

Perda de peso pode facilitar a concepção. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

As histórias de mulheres que engravidaram enquanto utilizavam medicamentos como Ozempic, Wegovy e outras canetas emagrecedoras ganharam força nas redes sociais e passaram a ser conhecidas como “bebês do Ozempic”. Embora o termo chame atenção, ele pode dar a impressão de que esses medicamentos aumentam diretamente a fertilidade. Na realidade, a explicação é mais complexa e envolve mudanças no metabolismo, no equilíbrio hormonal e até na eficácia de alguns métodos contraceptivos.

Especialistas destacam que esses medicamentos não são indicados durante a gravidez, mas o crescente número de gestações inesperadas levou pesquisadores a investigar o que realmente está acontecendo.

Emagrecer também muda a fertilidade

Os medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida, promovem uma perda de peso significativa em muitas pessoas. Esse emagrecimento pode provocar alterações importantes no organismo feminino.

Em mulheres com obesidade ou síndrome dos ovários policísticos (SOP), por exemplo, a redução do peso pode favorecer a regularização da ovulação, aumentar a frequência de ciclos menstruais normais e elevar naturalmente as chances de gravidez.

Além disso, a melhora da resistência à insulina, bastante comum nessas pacientes, também contribui para um ambiente hormonal mais favorável à concepção.

Ou seja, muitas mulheres que antes tinham dificuldade para engravidar passam a ovular novamente após perder peso, mesmo sem perceber essa mudança imediatamente.

Outro detalhe que pode surpreender

Canetas emagrecedoras podem interferir na absorção da pílula anticoncepcional, aumentando o risco de gravidez inesperada em algumas situações. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Existe ainda um fator pouco conhecido.

Alguns medicamentos dessa classe retardam o esvaziamento do estômago, alterando a velocidade com que alimentos e medicamentos são absorvidos. Em determinados casos, isso pode diminuir a eficácia de anticoncepcionais orais, especialmente durante o início do tratamento ou após aumentos de dose de alguns fármacos da categoria.

Por isso, as bulas de alguns desses medicamentos recomendam atenção especial ao método contraceptivo utilizado durante essas fases do tratamento.

Esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que tantas mulheres relatam gestações inesperadas durante o uso das canetas emagrecedoras.

As pesquisas começam a trazer respostas

Com o aumento desses relatos, diversos grupos científicos passaram a avaliar a segurança da exposição aos agonistas de GLP-1 durante a gestação.

Um dos trabalhos mais recentes foi publicado na revista Scientific Reports, em 8 de julho de 2026, tendo Nusret Uysal como autor principal. A revisão sistemática reuniu sete estudos, envolvendo mais de 40 mil gestações com exposição aos medicamentos dessa classe.

Os pesquisadores observaram que, com os dados disponíveis até o momento, não houve aumento estatisticamente significativo do risco de malformações congênitas, natimortalidade, aborto espontâneo, parto prematuro ou bebês pequenos para a idade gestacional entre as mulheres expostas aos agonistas de GLP-1. Apesar disso, os próprios autores destacam que as evidências ainda são limitadas e que são necessários estudos adicionais para estabelecer conclusões definitivas sobre segurança durante a gravidez.

Gravidez exige suspensão do tratamento

Apesar dos resultados tranquilizadores das pesquisas mais recentes, Ozempic, Wegovy e medicamentos semelhantes continuam não sendo recomendados durante a gestação. Isso acontece porque ainda faltam estudos clínicos robustos capazes de confirmar sua segurança para o desenvolvimento do bebê.

Por esse motivo, mulheres que desejam engravidar devem conversar com o médico antes de iniciar ou interromper o tratamento. Da mesma forma, caso a gravidez seja descoberta durante o uso da medicação, a orientação é procurar acompanhamento médico o quanto antes para avaliar a melhor conduta.

O fenômeno dos chamados “bebês do Ozempic” parece estar muito mais relacionado à recuperação da fertilidade provocada pela melhora metabólica e pela perda de peso do que a um efeito direto do medicamento sobre a capacidade de engravidar. Ainda assim, trata-se de um tema que continua sendo acompanhado de perto pela comunidade científica.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn