Você espirra quando sai no sol? A genética pode explicar esse hábito curioso 

Luz forte pode provocar espirros em algumas pessoas. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

A cena é comum: basta sair de um ambiente escuro para um dia ensolarado ou olhar rapidamente para uma luz muito forte e, de repente, surgem um ou vários espirros. Muita gente acredita que isso acontece por causa de poeira, pólen ou alergias, mas nem sempre essa é a explicação. Em muitos casos, o fenômeno está ligado a uma característica genética conhecida como reflexo do espirro fótico, também chamado de síndrome ACHOO.

Embora pareça apenas uma curiosidade, esse reflexo desperta o interesse da ciência há décadas e continua sendo investigado. A condição não é considerada uma doença, mas uma resposta incomum do sistema nervoso que pode ser herdada de pais para filhos.

Luz intensa “confunde” o cérebro

Ao olhar para uma fonte de luz muito brilhante, como o Sol ou um farol, as pupilas se contraem rapidamente para proteger os olhos. Em algumas pessoas, esse estímulo visual acaba ativando, por engano, circuitos nervosos ligados ao reflexo do espirro.

A principal hipótese é que exista uma espécie de “interferência” entre o nervo óptico e o nervo trigêmeo, responsável por transmitir sensações da face e também participar do mecanismo do espirro.

Como resultado, o cérebro interpreta um estímulo luminoso como se houvesse uma irritação dentro do nariz, desencadeando espirros mesmo sem qualquer alergia ou infecção.

Estima-se que esse reflexo ocorra em aproximadamente 10% a 35% da população, variando entre diferentes estudos.

Pesquisas recentes ampliam o conhecimento sobre a síndrome ACHOO

Uma revisão publicada na revista Neurology India, em 6 de maio de 2026, liderada por Marija Bozic, reuniu as principais evidências sobre o reflexo do espirro fótico (ACHOO Syndrome) e suas implicações para a neurologia, oftalmologia e anestesiologia. Os autores descrevem que essa característica apresenta herança autossômica dominante, ou seja, pode ser transmitida entre gerações, embora o mecanismo exato ainda não tenha sido totalmente esclarecido.

O trabalho também destaca que o reflexo costuma ser benigno, mas pode representar um risco em situações específicas, como durante a condução de veículos ao sair de um túnel para uma área muito iluminada ou em outras atividades que exigem atenção visual imediata. Nessas circunstâncias, uma sequência de espirros pode provocar uma breve perda da visão devido ao fechamento involuntário dos olhos.

Nem todo espirro após o sol significa alergia

Luz forte e alergia provocam espirros diferentes. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

É importante lembrar que o reflexo do espirro fótico não envolve o sistema imunológico. Diferentemente da rinite alérgica, ele não é provocado por pólen, poeira, pelos de animais ou outros alérgenos.

Algumas diferenças ajudam a distinguir os dois casos:

  • Reflexo fótico: ocorre logo após a exposição à luz intensa e costuma desaparecer rapidamente.
  • Alergia: geralmente vem acompanhada de coceira no nariz, olhos lacrimejando, coriza e espirros repetitivos durante períodos mais longos.

Caso os espirros ocorram frequentemente, independentemente da iluminação, ou sejam acompanhados de outros sintomas respiratórios, a avaliação médica é importante para identificar a causa correta.

Uma curiosidade genética que ainda guarda mistérios

Apesar de já ser reconhecido pela medicina, o reflexo do espirro fótico continua cercado por perguntas sem resposta definitiva. Os cientistas ainda investigam por que algumas pessoas apresentam essa resposta enquanto outras nunca espirram diante de uma luz intensa.

Por enquanto, sabe-se que essa característica faz parte da diversidade do funcionamento do sistema nervoso humano e, na grande maioria dos casos, não representa um problema de saúde. Ainda assim, conhecer esse reflexo ajuda a evitar confusões com alergias e mostra como pequenas diferenças genéticas podem influenciar reações aparentemente comuns do nosso dia a dia.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn