O jeito que você grelha o frango pode estar acelerando suas rugas e flacidez 

Calor excessivo aumenta compostos ligados às rugas. (Foto: Aflo via Canva)

Um peito de frango grelhado costuma ser sinônimo de alimentação saudável. Rico em proteínas e pobre em gordura, ele faz parte da rotina de milhões de pessoas. No entanto, existe um detalhe que pouca gente observa: a forma como o alimento é preparado pode alterar sua composição química.

Quando o frango é exposto a temperaturas muito altas, principalmente até formar aquela crosta escura e tostada, ocorre uma intensa reação de Maillard, responsável pelo sabor e pelo aroma característicos dos alimentos grelhados. Embora esse processo torne a refeição mais saborosa, ele também favorece a produção dos chamados produtos finais de glicação avançada, conhecidos pela sigla AGEs.

Esses compostos vêm sendo investigados porque podem participar de mecanismos relacionados ao estresse oxidativo, à inflamação e ao envelhecimento dos tecidos, incluindo a pele.

Muito além da cor dourada do frango

Os AGEs são moléculas formadas quando açúcares reagem com proteínas ou gorduras durante o aquecimento intenso dos alimentos. Carnes preparadas na grelha, na churrasqueira, na frigideira ou assadas em temperaturas elevadas tendem a apresentar concentrações maiores desses compostos do que alimentos cozidos em água, ensopados ou preparados no vapor.

Depois de ingeridos, parte desses AGEs pode ser absorvida pelo organismo. Embora o corpo também produza essas moléculas naturalmente, especialmente com o avanço da idade, o consumo frequente de alimentos ricos nesses compostos pode aumentar essa carga.

Na pele, esse processo merece atenção porque o colágeno e a elastina, responsáveis pela firmeza e elasticidade, são proteínas particularmente suscetíveis à glicação.

Colágeno mais rígido, pele menos elástica

Quando os AGEs se acumulam nos tecidos, eles podem formar ligações permanentes entre as fibras de colágeno, tornando-as mais rígidas e menos flexíveis.

Além disso, essas moléculas podem ativar receptores celulares capazes de estimular processos inflamatórios e aumentar a produção de radicais livres. Como consequência, a renovação da pele pode ficar comprometida ao longo do tempo.

Isso não significa que um churrasco ocasional provocará rugas imediatamente. O problema está na exposição frequente, associada a outros fatores que também aceleram o envelhecimento cutâneo, como excesso de sol, tabagismo, alimentação desequilibrada e controle inadequado da glicemia.

Novas evidências explicam a ligação entre glicação e rugas 

Uma revisão publicada na revista Journal of Cosmetic Dermatology, em 21 de maio de 2026, com autoria principal de Diala Haykal, analisou o papel dos produtos finais de glicação avançada (AGEs) no envelhecimento da pele.

O trabalho descreve que os AGEs se acumulam em proteínas estruturais, especialmente colágeno e elastina, promovendo ligações cruzadas que reduzem sua elasticidade, aumentam a rigidez dos tecidos e dificultam os processos naturais de reparo. A revisão também destaca que a interação entre AGEs e o receptor RAGE intensifica o estresse oxidativo e a inflamação, mecanismos associados ao aparecimento de rugas, flacidez, alterações de pigmentação e cicatrização menos eficiente. Os autores ressaltam ainda que estratégias como alimentação equilibrada e métodos de preparo que reduzam a formação desses compostos podem contribuir para uma pele mais saudável, embora mais estudos clínicos ainda sejam necessários.

Pequenas mudanças fazem diferença

Não é preciso abandonar o frango grelhado, mas alguns cuidados ajudam a reduzir a formação de AGEs durante o preparo:

  • Evite carbonizar ou queimar a superfície da carne.
  • Prefira temperaturas moderadas sempre que possível.
  • Alterne preparações grelhadas com alimentos cozidos, ensopados ou preparados no vapor.
  • Inclua frutas, verduras, legumes e alimentos ricos em antioxidantes na rotina alimentar.

Essas escolhas diminuem a exposição aos AGEs e fazem parte de um padrão alimentar que beneficia não apenas a pele, mas também a saúde como um todo.

No fim das contas, não é o frango que acelera o envelhecimento, e sim o conjunto de hábitos alimentares e do estilo de vida. A maneira como os alimentos chegam ao prato pode ser tão importante quanto a escolha do próprio alimento.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn