Planeta sem nascer do Sol desafia a ciência com possível abrigo para vida

Planeta de dia eterno pode esconder regiões surpreendentemente favoráveis à vida, revela estudo. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

Durante muito tempo, os cientistas imaginaram que um planeta com um lado permanentemente escaldante e outro mergulhado em uma noite congelante seria completamente incompatível com a vida. Afinal, como organismos poderiam sobreviver em um ambiente onde o Sol nunca nasce nem se põe?

No entanto, uma nova pesquisa sugere que essa visão pode estar incompleta. Um estudo publicado na Nature Communications, liderado por Daisuke Noto e publicado em 2025, indica que alguns exoplanetas com rotação sincronizada podem distribuir calor internamente de maneira muito mais eficiente do que se imaginava. Como consequência, determinadas regiões poderiam apresentar temperaturas mais moderadas, aumentando o potencial para ambientes habitáveis.

Um planeta onde o dia nunca termina

O foco da pesquisa foi o LHS 3844b, um exoplaneta localizado a cerca de 48,5 anos luz da Terra. Esse mundo orbita uma estrela anã vermelha e apresenta um fenômeno conhecido como rotação sincronizada.

Isso significa que o planeta leva exatamente o mesmo tempo para girar em torno do próprio eixo e para completar uma volta ao redor da estrela. O resultado é semelhante ao que acontece com a Lua em relação à Terra. Assim, um hemisfério permanece em luz permanente, enquanto o outro enfrenta uma escuridão eterna. As diferenças de temperatura são impressionantes:

  • Lado iluminado: pode alcançar entre 1.000 e 2.000 Kelvin.
  • Lado escuro: aproxima-se do zero absoluto, uma das temperaturas mais baixas possíveis na natureza.

À primeira vista, essas condições parecem eliminar qualquer possibilidade de vida.

O interior do planeta pode mudar completamente esse cenário

Em vez de analisar apenas a superfície, os pesquisadores voltaram a atenção para o manto, a enorme camada rochosa localizada entre a crosta e o núcleo.

Para investigar esse comportamento, a equipe criou um modelo físico em laboratório, utilizando um tanque preenchido com um fluido viscoso e materiais sensíveis à temperatura. O objetivo era reproduzir como o calor poderia circular dentro de um planeta preso em dia e noite permanentes.

Os experimentos revelaram um comportamento surpreendentemente organizado.

O material aquecido sob o lado iluminado sobe lentamente, desloca-se em direção ao lado escuro, perde calor, afunda novamente e retorna pelo interior do planeta. Esse processo forma uma circulação contínua, semelhante a um gigantesco motor térmico funcionando sem interrupção.

Calor subterrâneo pode criar regiões mais favoráveis

Esse fluxo constante de calor pode impedir que determinadas áreas atinjam temperaturas extremamente altas ou extremamente baixas.

Segundo o estudo, isso abre espaço para a existência de zonas intermediárias, especialmente em latitudes médias, onde as condições podem ser significativamente mais estáveis.

Além disso, os pesquisadores observaram que o interior do planeta pode manter fontes geotérmicas localizadas, semelhantes aos processos que alimentam regiões vulcânicas na Terra, embora com comportamento bastante diferente.

Esse cenário é importante porque ambientes aquecidos internamente podem oferecer condições interessantes para processos químicos ligados ao surgimento da vida.

A busca por vida além da Terra ganha um novo caminho

Os resultados também indicam que a circulação do manto pode influenciar o comportamento do núcleo líquido, o que talvez permita a formação de campos magnéticos. Caso isso ocorra, esses campos poderiam ajudar a proteger a superfície da intensa radiação emitida pela estrela hospedeira.

Embora ainda não exista qualquer evidência de vida em LHS 3844b, o estudo amplia significativamente o conceito de habitabilidade planetária. Em vez de procurar apenas mundos parecidos com a Terra, os cientistas passam a considerar que até planetas aparentemente extremos podem esconder condições favoráveis em determinadas regiões.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes