Seu sono acaba às 3 da manhã? A resposta pode estar nos hormônios 

Cortisol pode influenciar despertares na madrugada. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Acordar de repente durante a madrugada, especialmente perto das 3 da manhã, com o coração acelerado, pensamentos a mil ou uma sensação inexplicável de ansiedade é uma experiência mais comum do que muitas pessoas imaginam. Embora esse despertar possa estar relacionado a diversos fatores, como estresse, hábitos de sono e ambiente, existe também uma participação importante do próprio sistema hormonal do organismo.

Entre os principais envolvidos está o cortisol, um hormônio essencial para regular energia, metabolismo e resposta ao estresse. Ele segue um padrão diário controlado pelo ritmo circadiano, o relógio biológico que organiza diversas funções do corpo ao longo das 24 horas.

Quando esse equilíbrio sofre alterações, o organismo pode entrar em um estado de maior alerta justamente em um momento em que deveria permanecer em repouso.

O relógio interno que prepara o corpo para despertar

O cortisol não é um hormônio “ruim”. Na verdade, ele é fundamental para a sobrevivência. Durante a madrugada, seus níveis normalmente permanecem mais baixos, favorecendo o sono. Entretanto, próximo ao horário natural de despertar, ocorre uma elevação progressiva chamada resposta do cortisol ao despertar.

Esse aumento ajuda o corpo a:

  • recuperar energia após o período de descanso;
  • aumentar a atenção;
  • preparar o cérebro para as atividades do dia;
  • ajustar processos metabólicos.

Porém, quando esse sistema fica desregulado, algumas pessoas podem apresentar uma ativação precoce do organismo, levando a despertares acompanhados de:

  • palpitações;
  • sensação de alerta intenso;
  • dificuldade para voltar a dormir;
  • pensamentos acelerados.

Hormônio do estresse interfere no descanso

O sono depende de uma delicada comunicação entre cérebro, hormônios e sistema nervoso. Por isso, noites mal dormidas, estresse prolongado e mudanças frequentes na rotina podem alterar essa sintonia.

Em algumas situações, o corpo passa a interpretar determinados períodos da noite como momentos de preparação para ação, reduzindo a estabilidade do sono.

Além disso, existe uma relação de mão dupla: o estresse pode prejudicar o sono, enquanto a falta de sono pode aumentar a vulnerabilidade aos efeitos do estresse.

Pesquisa investiga o comportamento do cortisol após o despertar

Um estudo publicado na revista científica Psychoneuroendocrinology, com autoria principal de Nina Smyth e publicado em 9 de março de 2026, analisou a chamada resposta do cortisol ao despertar em mulheres saudáveis. A pesquisa acompanhou 61 participantes durante sete dias, com coletas repetidas de saliva após o despertar, para avaliar diferentes padrões de liberação do hormônio.

Os pesquisadores observaram que diferentes características da curva de cortisol, incluindo o aumento inicial e a queda após o pico, estavam relacionadas a indicadores de saúde e vulnerabilidade fisiológica. O trabalho contribui para compreender como a regulação do cortisol pode refletir a adaptação do organismo aos desafios diários.

Hábitos que ajudam a proteger o ritmo hormonal

Embora o cortisol faça parte do funcionamento normal do organismo, alguns hábitos favorecem uma melhor organização do relógio biológico:

  • manter horários regulares para dormir e acordar;
  • evitar luz intensa e telas próximo ao horário de descanso;
  • reduzir consumo de estimulantes no período noturno;
  • praticar atividades relaxantes antes de dormir;
  • manter exposição à luz natural durante o dia.

Também é importante observar a frequência desses despertares. Acordar ocasionalmente durante a noite pode acontecer com qualquer pessoa. Porém, episódios repetidos acompanhados de ansiedade intensa, cansaço excessivo durante o dia ou prejuízo na rotina merecem avaliação profissional.

O corpo humano possui mecanismos sofisticados para alternar entre descanso e atividade. O cortisol participa dessa transição, mas quando seu ritmo perde equilíbrio, ele pode contribuir para aquela sensação de que o sono terminou antes da hora. Entender essa conexão entre hormônios, cérebro e sono ajuda a interpretar melhor os sinais do próprio organismo.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn