Nova terapia usa luz para acordar células cancerígenas escondidas do tratamento 

Tecnologia usa luz para atingir células do câncer. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Um dos maiores desafios no tratamento do câncer é que nem todas as células tumorais permanecem ativas. Enquanto muitas continuam se multiplicando rapidamente, outras entram em um estado de dormência, reduzindo drasticamente sua atividade. Esse comportamento permite que escapem da ação de diversos medicamentos e permaneçam “escondidas” por meses ou até anos, aumentando o risco de recidiva da doença.

Agora, pesquisadores desenvolveram uma estratégia inovadora que utiliza luz para controlar esse processo. A tecnologia consegue fazer com que essas células deixem o estado de dormência, tornando-se novamente suscetíveis às terapias contra o câncer. Embora ainda esteja em fase experimental, a descoberta representa um passo importante na busca por tratamentos mais precisos e com menos efeitos colaterais.

Como as células cancerígenas conseguem escapar do tratamento

Em alguns tipos de câncer, como determinados tumores de pulmão, hormônios relacionados ao estresse ativam proteínas chamadas receptores de glicocorticoides. Quando isso acontece, parte das células tumorais reduz sua atividade e entra em um estado semelhante ao de “hibernação”.

Nesse estágio, elas praticamente deixam de se dividir. Como muitos medicamentos atuam justamente sobre células em multiplicação, sua eficácia diminui significativamente.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que alguns tumores voltam a crescer mesmo após um tratamento aparentemente bem-sucedido.

A luz funciona como um interruptor molecular

Os pesquisadores desenvolveram um sistema capaz de atuar diretamente sobre os receptores de glicocorticoides utilizando um mecanismo inspirado no próprio processo de reciclagem de proteínas existente nas células.

A tecnologia emprega uma molécula formada por três componentes que identifica esses receptores e os marca para destruição. Entretanto, existe um detalhe importante: quando iluminada por um comprimento de onda específico, essa molécula muda de forma e interrompe o processo.

Na prática, a luz funciona como um interruptor, permitindo controlar exatamente onde o tratamento permanece ativo. Isso abre a possibilidade de agir principalmente no tumor, preservando os tecidos saudáveis ao redor e reduzindo potenciais efeitos adversos.

Estudo demonstra que a estratégia desperta células dormentes

Um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), com autoria principal de Karina M. Freitag e publicado em maio de 2026, apresentou essa nova plataforma baseada em moléculas fotocomutáveis capazes de degradar seletivamente os receptores de glicocorticoides. Em experimentos realizados com células de câncer de pulmão cultivadas em laboratório, os pesquisadores observaram que a tecnologia eliminou rapidamente esses receptores e fez com que as células deixassem o estado de dormência. As análises também mostraram alterações na atividade gênica compatíveis com a retomada da atividade celular, tornando essas células novamente vulneráveis às terapias antitumorais.

Embora os resultados sejam promissores, os experimentos ainda foram realizados em culturas celulares. Portanto, novas pesquisas serão necessárias para confirmar a eficácia e a segurança da técnica em organismos vivos.

Uma plataforma que pode beneficiar diferentes tipos de câncer

Além do câncer de pulmão, os pesquisadores acreditam que o sistema poderá ser adaptado para atingir outros receptores envolvidos em diferentes tumores.

Entre as possibilidades futuras estão:

  • câncer de mama hormônio dependente;
  • câncer de próstata avançado;
  • estudos sobre mecanismos de resistência aos tratamentos.

Outro objetivo é desenvolver versões que respondam à luz infravermelha próxima, capaz de penetrar mais profundamente nos tecidos e ampliar as possibilidades clínicas.

Apesar de ainda exigir diversos testes antes de chegar aos pacientes, essa tecnologia representa uma abordagem inovadora. Em vez de apenas atacar as células tumorais, ela procura despertar aquelas que estavam escondidas, permitindo que os tratamentos convencionais tenham uma oportunidade maior de eliminá-las. Se os próximos estudos confirmarem esses resultados, a luz poderá se tornar uma importante aliada na luta contra alguns dos tipos de câncer mais difíceis de tratar.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn