Acidificação dos oceanos pode encolher o cérebro de lulas, revela estudo

Estudo sugere que oceanos mais ácidos podem reduzir drasticamente o cérebro das lulas. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

As lulas estão entre os animais mais fascinantes do oceano. Ágeis, predadoras e dotadas de um sistema nervoso sofisticado, elas dependem de visão apurada e processamento rápido de informações para caçar, escapar e interagir com o ambiente. Agora, um novo achado coloca esse desempenho em xeque: a acidificação dos oceanos pode estar alterando de forma drástica o cérebro desses cefalópodes.

Dados apresentados em 8 de julho de 2026 durante a conferência da Sociedade de Biologia Experimental, em Florença, indicam que a exposição prolongada a um cenário de acidificação semelhante ao projetado para o fim do século pode levar a uma redução de cerca de 50% no volume cerebral de lulas da espécie Sepioteuthis lessoniana, conhecida como lula-de-recife-de-barbatana-grande. O trabalho dialoga com um estudo já publicado na revista Communications Biology, liderado por Garett Joseph Patrick Allen e publicado em 8 de janeiro de 2026, que investigou como a acidificação afeta o metabolismo neural, o comportamento e o processamento visual desses animais

O mar absorve CO₂ e a química da água muda

Quando o dióxido de carbono (CO₂) liberado pela atividade humana se acumula na atmosfera, parte dele é absorvida pelos oceanos. Esse processo ajuda a frear temporariamente o aquecimento global, mas cobra um preço: o CO₂ reage com a água e forma ácido carbônico, reduzindo o pH e tornando o ambiente marinho mais ácido.

Essa mudança química não afeta apenas organismos com conchas ou esqueletos calcários. Cada vez mais estudos mostram que a acidificação também pode mexer com fisiologia, comportamento, metabolismo e função nervosa de animais marinhos. No caso das lulas, o impacto pode ser especialmente preocupante porque estamos falando de invertebrados com cérebro grande, alta demanda energética e forte dependência de estímulos visuais para sobreviver.

O que aconteceu com o cérebro das lulas

No experimento, os pesquisadores criaram lulas em dois cenários: um com acidez próxima à do oceano atual e outro com pH compatível com projeções para 2100, em um mundo com emissões elevadas de CO₂. Após cerca de três meses de desenvolvimento, os animais passaram por análises por ressonância magnética, o que permitiu comparar o volume do cérebro entre os grupos.

O resultado chamou atenção: indivíduos mantidos no ambiente mais ácido apresentaram cérebros substancialmente menores, com uma redução média próxima de 49% em alguns casos. O dado é marcante por dois motivos. Primeiro, porque é uma mudança anatômica muito expressiva em um órgão central para o comportamento. Segundo, porque o tamanho do corpo não diminuiu na mesma proporção, sugerindo um efeito mais específico sobre o sistema nervoso do que sobre o crescimento geral do animal

As áreas visuais parecem estar entre as mais afetadas

Os resultados preliminares indicam que regiões ligadas ao processamento visual, como os lobos ópticos, estão entre as áreas mais impactadas. Isso faz sentido do ponto de vista biológico. Lulas caçam com base em informação visual, ajustam seus movimentos em alta velocidade e precisam interpretar sinais do ambiente quase em tempo real.

Se partes do cérebro responsáveis por essa integração encolhem ou passam a funcionar sob estresse metabólico, o animal pode perder eficiência em tarefas essenciais. O estudo em Communications Biology já havia mostrado que a acidificação altera o metabolismo do tecido neural, muda a expressão de genes ligados ao funcionamento cerebral e está associada a piora no comportamento de caça e maior dificuldade de capturar presas

Por que isso importa além das lulas

O achado vai além da curiosidade anatômica. As lulas ocupam posições importantes nas cadeias alimentares marinhas, atuando tanto como predadoras quanto como presas de peixes, mamíferos e aves marinhas. Se a acidificação comprometer sua capacidade de localizar alimento, fugir de predadores ou se reproduzir com sucesso, os efeitos podem se espalhar por todo o ecossistema.

Ainda não está totalmente claro qual mecanismo biológico leva à redução do volume cerebral. Entre as hipóteses estão estresse oxidativo, custo energético elevado para manter o equilíbrio ácido-base do organismo e alterações no desenvolvimento neural. O ponto mais importante, por enquanto, é que a acidificação dos oceanos não parece ameaçar apenas corais, moluscos calcificadores e recifes. Ela também pode atingir o cérebro de animais altamente complexos, com possíveis consequências para comportamento, ecologia e sobrevivência.

Em um planeta que continua despejando CO₂ na atmosfera, esse tipo de evidência amplia o alerta: mudar a química do oceano pode transformar silenciosamente a biologia de espécies-chave muito antes que percebamos os efeitos a olho nu.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes