Lipedema pode estar por trás daquela gordura que não desaparece com dieta 

Nem toda gordura localizada é excesso de peso. (Foto: Getty Images via Canva)

Durante anos, muitas mulheres convivem com uma característica corporal que parece não responder aos esforços tradicionais de emagrecimento: pernas que permanecem volumosas, sensação de peso, dor ao toque e facilidade para apresentar hematomas. Muitas vezes, esses sinais são interpretados apenas como resultado de ganho de peso ou falta de controle alimentar.

Porém, existe uma condição chamada lipedema, uma alteração crônica do tecido adiposo que pode causar acúmulo desproporcional de gordura principalmente nas pernas e, em alguns casos, nos braços.

Diferentemente do aumento comum de gordura corporal, o lipedema envolve alterações específicas no tecido adiposo e pode afetar a qualidade de vida devido ao desconforto físico e às limitações causadas pelos sintomas.

O sinal corporal que diferencia lipedema de ganho de peso comum 

O organismo normalmente armazena gordura em diferentes regiões do corpo conforme fatores genéticos, hormonais e metabólicos. No entanto, no lipedema, ocorre uma distribuição característica, geralmente com maior concentração de gordura na parte inferior do corpo.

Algumas características frequentemente observadas incluem:

  • Aumento desproporcional das pernas em relação ao tronco.
  • Sensibilidade ou dor na região afetada.
  • Sensação de peso nas pernas.
  • Facilidade para surgimento de manchas roxas.
  • Inchaço que pode piorar ao longo do dia.

Um ponto importante é que o lipedema pode coexistir com excesso de peso, mas não deve ser confundido automaticamente com obesidade. São condições diferentes, com mecanismos biológicos distintos.

A diferença entre lipedema e gordura comum

Na obesidade, o aumento de gordura corporal costuma ocorrer de maneira mais distribuída e está frequentemente relacionado ao balanço entre ingestão e gasto energético.

Já no lipedema, o problema está associado a uma alteração no tecido adiposo subcutâneo, que apresenta comportamento diferente. Por isso, algumas mulheres relatam dificuldade em reduzir determinadas regiões mesmo com mudanças no estilo de vida.

Além disso, o lipedema pode envolver processos inflamatórios locais e alterações na estrutura do tecido, fatores que ajudam a explicar sintomas como dor e sensibilidade.

Pesquisa recente analisa os sinais e desafios do diagnóstico

Uma revisão científica publicada na revista International Journal of Dermatology, liderada por Aria Vazirnia e publicada em 7 de janeiro de 2026, analisou os principais aspectos do lipedema, incluindo manifestações clínicas, critérios diagnósticos e opções terapêuticas.

O estudo destacou que o lipedema é uma condição frequentemente subdiagnosticada, podendo ser confundida com obesidade ou linfedema, o que pode atrasar o reconhecimento adequado do problema.

A revisão também avaliou características como acúmulo anormal de gordura, dor, dificuldade de mobilidade e impacto na qualidade de vida, mostrando a importância de uma avaliação clínica detalhada para diferenciar o lipedema de outras alterações corporais.

Identificar cedo pode mudar a evolução da condição

Como o lipedema ainda é pouco conhecido, muitas mulheres passam anos buscando explicações para sintomas persistentes. O diagnóstico geralmente depende da avaliação de um profissional de saúde, considerando histórico clínico, exame físico e características específicas do tecido.

O acompanhamento pode envolver diferentes estratégias, dependendo do estágio da condição e dos sintomas apresentados. Entre as abordagens utilizadas estão medidas para controle do desconforto, cuidados com circulação, atividade física adaptada e acompanhamento especializado.

É importante lembrar que nem toda gordura localizada representa lipedema. Alterações corporais são influenciadas por diversos fatores, e a avaliação individual é essencial.

O reconhecimento dessa condição permite compreender que algumas mudanças no corpo não são simplesmente uma questão de peso. O lipedema mostra como a ciência vem descobrindo formas mais precisas de entender o tecido adiposo e suas diferentes funções no organismo.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn