Não é gripe nem resfriado: entenda por que o frio faz o nariz escorrer 

Coriza no inverno pode não ser gripe. (Foto: Prostock-studio via Canva)

Basta sair de um ambiente quente e enfrentar uma corrente de ar frio para algumas pessoas perceberem o mesmo efeito: o nariz começa a escorrer quase imediatamente. A primeira suspeita costuma ser gripe ou resfriado, mas nem sempre existe uma infecção por trás desse sintoma.

O chamado nariz gotejando no inverno pode ser uma resposta do próprio organismo às mudanças ambientais. O contato com o ar frio e seco estimula a mucosa nasal, que reage para manter o funcionamento adequado das vias respiratórias.

Esse mecanismo faz parte de um sistema de proteção natural do corpo, mas em algumas pessoas a resposta é mais intensa, principalmente naquelas com rinite não alérgica.

O frio ativa uma reação dentro das vias respiratórias

O nariz tem uma função muito mais complexa do que apenas permitir a entrada de ar. A mucosa nasal atua como uma barreira que ajuda a filtrar, aquecer e umidificar o ar antes que ele alcance os pulmões.

Quando o ar inspirado está muito frio e com pouca umidade, a região nasal precisa se adaptar rapidamente. Essa mudança pode provocar alterações nos vasos sanguíneos e na produção de secreções, levando a sintomas como:

  • Coriza transparente.
  • Sensação de nariz irritado.
  • Aumento da secreção nasal.
  • Congestão em algumas pessoas.

Em indivíduos mais sensíveis, essa resposta pode ser exagerada e causar desconforto mesmo sem a presença de vírus ou bactérias.

Nariz reage mais do que deveria

A rinite não alérgica é uma condição em que a mucosa nasal apresenta maior sensibilidade a estímulos que normalmente não causariam sintomas tão intensos.

Entre os gatilhos mais comuns estão:

  • Mudanças bruscas de temperatura.
  • Ar frio e seco.
  • Cheiros fortes.
  • Fumaça e poluentes.

Diferentemente da rinite alérgica, esse tipo de reação não depende necessariamente de contato com substâncias como pólen ou ácaros. O problema está relacionado principalmente à forma como o nariz responde a estímulos físicos e ambientais.

Pesquisa avalia a resposta do nariz ao ar frio

Um estudo publicado na revista American Journal of Rhinology & Allergy, liderado por Dennis J. Shusterman e Stephen A. Tilles, publicado em setembro de 2009, investigou como pessoas com rinite não alérgica não infecciosa respondiam à exposição ao ar frio e seco.

A pesquisa avaliou 14 participantes com rinite não alérgica e 10 pessoas sem alterações nasais, submetendo os voluntários a 15 minutos de exposição ao ar frio e seco ou ao ar quente e úmido. Os pesquisadores observaram que indivíduos com maior sensibilidade a estímulos físicos apresentavam maior reatividade nasal após o contato com o frio, incluindo alterações na resistência das vias nasais.

Os resultados ajudaram a demonstrar que o frio pode ser um gatilho capaz de provocar sintomas nasais mesmo sem uma infecção respiratória envolvida.

Como aliviar o desconforto nos dias frios

Embora essa reação seja geralmente inofensiva, algumas medidas podem ajudar a reduzir o incômodo:

  • Evitar exposição prolongada ao vento frio.
  • Manter boa hidratação.
  • Cuidar da umidade do ambiente em locais muito secos.
  • Fazer higiene nasal quando indicada por profissionais de saúde.

Também é importante observar a frequência dos sintomas. Quando a coriza é persistente, intensa ou vem acompanhada de outros sinais, como falta de ar, febre ou piora progressiva, é recomendado buscar avaliação médica.

O nariz escorrendo no inverno é um exemplo de como o corpo se adapta constantemente ao ambiente. Muitas vezes, o que parece um sinal de doença é apenas uma reação fisiológica das vias respiratórias tentando manter seu equilíbrio diante das mudanças de temperatura.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn