IA encontra novos supercondutores e acelera busca pela energia do futuro

IA acelera busca por supercondutores revolucionários que podem transformar energia e tecnologia do futuro. (Imagem: Divulgação/ Esa Kapila)

Imagine uma rede elétrica onde a energia percorre quilômetros sem desperdício ou computadores capazes de funcionar com eficiência muito superior à atual. Esse cenário depende de um avanço científico há décadas perseguido: a criação de supercondutores que operem em temperaturas próximas ao ambiente. Agora, uma nova estratégia baseada em inteligência artificial pode acelerar essa busca e transformar a maneira como novos materiais são encontrados.

Pesquisadores da Universidade Aalto, na Finlândia, em colaboração com cientistas internacionais, desenvolveram um método que combina aprendizado de máquina e física quântica para identificar candidatos promissores a supercondutores. A abordagem já levou à descoberta de dois novos materiais, chamados YRu₃B₂ e LuRu₃B₂, abrindo caminho para uma exploração muito mais rápida do universo de possibilidades químicas.

O estudo foi publicado em 2026 na revista Physical Review Research, com autoria principal de Rose Albu Mustaf, em parceria com pesquisadores liderados pela professora Päivi Törmä, da Universidade Aalto.

O desafio de encontrar materiais especiais

Os supercondutores são materiais capazes de conduzir eletricidade com resistência praticamente zero quando submetidos a determinadas condições. Essa propriedade permite que correntes elétricas circulem sem as perdas tradicionais causadas pelo aquecimento dos condutores comuns.

Atualmente, esses materiais já possuem aplicações importantes em áreas como:

  • computação quântica;
  • equipamentos de ressonância magnética;
  • trens de levitação magnética;
  • pesquisas sobre fusão nuclear.

Entretanto, existe uma grande limitação: a maioria dos supercondutores conhecidos precisa ser resfriada a temperaturas extremamente baixas. Esses sistemas exigem equipamentos complexos e caros, dificultando uma utilização mais ampla.

Por isso, cientistas de todo o mundo procuram um material capaz de apresentar supercondutividade em temperatura ambiente, algo que poderia alterar profundamente o consumo de energia e o desenvolvimento tecnológico.

A inteligência artificial como aceleradora científica

A busca tradicional por novos supercondutores é lenta porque envolve uma quantidade gigantesca de combinações possíveis entre elementos químicos. Muitas dessas combinações nunca apresentam propriedades úteis, fazendo com que testes experimentais consumam anos de trabalho.

A nova técnica muda essa lógica. Primeiro, algoritmos de aprendizado de máquina analisam milhares ou milhões de possibilidades e selecionam aquelas com maior potencial. Depois, os pesquisadores aplicam cálculos quânticos detalhados apenas nos candidatos mais promissores.

Esse processo reduz drasticamente o tempo necessário para encontrar novos materiais. No caso dos compostos YRu₃B₂ e LuRu₃B₂, os cientistas identificaram uma característica fundamental: a presença de bandas eletrônicas planas em uma estrutura conhecida como rede kagome, um padrão geométrico que influencia o comportamento dos elétrons.

A união entre quântica e inteligência artificial

A descoberta mostra como diferentes áreas da ciência podem trabalhar juntas para resolver problemas extremamente complexos. Enquanto a física quântica explica como os elétrons se comportam dentro dos materiais, a inteligência artificial ajuda a encontrar padrões que seriam quase impossíveis de identificar manualmente.

Segundo os pesquisadores, essa combinação pode permitir a análise de bilhões de possíveis materiais no futuro. O consórcio SuperC, criado em 2023, tem como objetivo utilizar essas ferramentas para acelerar a descoberta de novos supercondutores e aproximar a possibilidade de um material funcional em condições mais próximas das do cotidiano.

Uma possível revolução energética

Caso um supercondutor à temperatura ambiente seja desenvolvido, os impactos podem ser enormes. Redes elétricas poderiam perder muito menos energia durante a transmissão, centros de dados poderiam consumir menos eletricidade e novas tecnologias poderiam surgir em áreas ainda limitadas pelos materiais atuais.

Apesar disso, os cientistas ainda enfrentam desafios importantes, como produzir esses materiais em larga escala, garantir estabilidade e compreender completamente seus mecanismos quânticos.

Mesmo assim, a combinação entre inteligência artificial e ciência dos materiais inaugura uma nova fase nessa corrida. A próxima grande descoberta energética pode não surgir apenas de experimentos tradicionais, mas de algoritmos capazes de explorar caminhos que os humanos ainda não conseguiram enxergar.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes