Todo inverno a mesma história se repete. As temperaturas caem, os casos de resfriado aumentam e muita gente se pergunta se o frio realmente faz adoecer.
A resposta pode surpreender.
O frio, por si só, não transmite vírus. Afinal, ninguém pega gripe ou resfriado apenas porque saiu sem casaco. No entanto, a ciência descobriu que a queda da temperatura provoca mudanças biológicas dentro do nariz que podem facilitar a entrada de vírus respiratórios.
Em outras palavras, o frio não cria a infecção, mas pode abrir uma brecha para que ela aconteça.
A faxina microscópica que protege suas vias respiratórias
O interior do nariz é revestido por uma camada de células especializada em impedir a entrada de invasores.
Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!
Entrar no Canal do WhatsAppSobre essa superfície existem estruturas microscópicas chamadas cílios respiratórios. Elas funcionam como pequenas vassouras que se movimentam continuamente para empurrar muco, partículas de poeira, bactérias e vírus para fora das vias aéreas.
Esse mecanismo recebe o nome de clearance mucociliar.
Quando tudo funciona adequadamente, boa parte dos microrganismos inalados é eliminada antes mesmo de conseguir atingir as células do organismo.
O problema é que o ar frio e seco pode prejudicar esse sistema.
Com a redução da temperatura e da umidade, o muco tende a ficar mais espesso e os cílios podem perder eficiência, tornando a limpeza natural das vias respiratórias menos eficaz.
O exército secreto escondido dentro do nariz
Nos últimos anos, os pesquisadores descobriram uma linha de defesa ainda mais impressionante.
O nariz produz pequenas partículas chamadas vesículas extracelulares, estruturas microscópicas liberadas pelas células da mucosa nasal.
Essas vesículas atuam como verdadeiras armadilhas antivirais.
Elas carregam moléculas capazes de neutralizar vírus e impedir que eles se liguem às células humanas.
Um estudo publicado no Journal of Allergy and Clinical Immunology, liderado por Di Huang e publicado em fevereiro de 2023, demonstrou que a exposição ao frio reduz significativamente a produção dessas vesículas protetoras. Os pesquisadores observaram uma queda expressiva na liberação e na capacidade antiviral dessas estruturas quando o tecido nasal era submetido a temperaturas mais baixas.
Segundo os resultados, a defesa antiviral do nariz pode perder uma parte importante de sua eficiência em poucas horas após a exposição ao frio.
Por que os vírus adoram o inverno?
A explicação envolve uma combinação de fatores.
Durante os períodos frios ocorre:
- Menor eficiência do clearance mucociliar.
- Redução das vesículas extracelulares antivirais.
- Ressecamento das vias respiratórias.
- Maior permanência em ambientes fechados.
- Menor circulação de ar em locais compartilhados.
Esse cenário favorece a disseminação de vírus como o Rinovírus, principal causador dos resfriados comuns, além dos vírus da Influenza.
O que isso significa na prática?
A descoberta ajuda a explicar por que medidas simples continuam sendo tão importantes durante o inverno.
Entre elas:
- Manter ambientes ventilados.
- Hidratar-se adequadamente.
- Evitar aglomerações em locais fechados.
- Controlar a umidade do ar quando possível.
- Manter a vacinação contra gripe em dia.
Essas atitudes ajudam a reduzir as oportunidades de contato entre os vírus e uma barreira nasal temporariamente mais vulnerável.
O frio não causa o resfriado, mas facilita o caminho
Durante décadas, a ideia de que o frio “causa gripe” foi tratada como um mito. Hoje sabemos que a realidade é mais interessante.
A queda da temperatura não cria vírus nem provoca infecções diretamente. Porém, ela pode reduzir a eficiência de mecanismos naturais presentes no nariz, incluindo o funcionamento dos cílios respiratórios e a liberação de vesículas extracelulares antivirais.
Quando essa primeira linha de defesa fica enfraquecida, os vírus encontram um ambiente muito mais favorável para iniciar a infecção.
É por isso que, embora o frio não seja o vilão principal, ele pode ser um importante aliado dos microrganismos respiratórios.
