Tomar vitaminas em jejum? O erro que faz seu corpo eliminar tudo pela urina

Nem toda vitamina é melhor absorvida em jejum. (Foto: Corelens via Canva)
Nem toda vitamina é melhor absorvida em jejum. (Foto: Corelens via Canva)

Você acorda, pega o multivitamínico na gaveta, toma com um copo d’água e segue a rotina acreditando estar fazendo um favor para a saúde. Horas depois, percebe que a urina ganhou uma coloração amarelo intensa, quase fluorescente.

Muita gente interpreta isso como sinal de que as vitaminas estão “fazendo efeito”. Mas a explicação pode ser outra: em alguns casos, parte dos nutrientes ingeridos não está sendo aproveitada da forma mais eficiente pelo organismo.

A absorção de vitaminas depende de diversos fatores, incluindo o tipo de vitamina consumida, a presença de alimentos na refeição e até mesmo a combinação com outros nutrientes. Por isso, tomar suplementos em jejum nem sempre é a estratégia mais inteligente.

Nem todas as vitaminas seguem as mesmas regras

As vitaminas podem ser divididas em dois grandes grupos: hidrossolúveis e lipossolúveis.

As vitaminas hidrossolúveis incluem:

  • Vitamina C
  • Vitamina B1
  • Vitamina B2
  • Vitamina B3
  • Vitamina B6
  • Vitamina B12
  • Ácido fólico

Já as vitaminas lipossolúveis são:

  • Vitamina A
  • Vitamina D
  • Vitamina E
  • Vitamina K

A diferença entre elas é fundamental.

As vitaminas hidrossolúveis circulam facilmente na água presente no organismo. Quando consumidas em excesso, o corpo possui capacidade limitada de armazenamento e parte delas pode ser eliminada pela urina.

Isso ajuda a explicar por que alguns suplementos provocam a famosa coloração amarelo intensa, frequentemente associada à eliminação da riboflavina (vitamina B2).

O papel da gordura que muita gente ignora

Enquanto as vitaminas hidrossolúveis têm uma absorção relativamente simples, as vitaminas lipossolúveis dependem da presença de gordura para serem absorvidas adequadamente.

Sem esse processo, parte do potencial do suplemento pode ser desperdiçado.

Uma pesquisa publicada em janeiro de 2025 na revista Nutrients, liderada por Stefanie Steinbauer, investigou mecanismos capazes de aumentar a absorção de vitaminas lipossolúveis. Os resultados mostraram que processos relacionados à micelização, fundamentais para a absorção dessas vitaminas, influenciam diretamente sua biodisponibilidade.

Na prática, isso ajuda a explicar por que muitos especialistas recomendam ingerir vitaminas A, D, E e K junto a refeições que contenham alguma fonte de gordura saudável.

Quando nutrientes trabalham em equipe

Outro aspecto frequentemente ignorado é o chamado sinergismo nutricional.

Alguns nutrientes ajudam outros a serem melhor aproveitados pelo organismo.

O exemplo mais conhecido envolve a vitamina C e o ferro não heme, encontrado em alimentos vegetais como feijão, lentilha e vegetais folhosos.

Quando consumida junto às refeições, a vitamina C pode aumentar a absorção desse tipo de ferro ao facilitar sua conversão para uma forma mais facilmente absorvida pelo intestino. Esse mecanismo é amplamente reconhecido na nutrição e continua sendo explorado em pesquisas sobre biodisponibilidade de micronutrientes.

Por outro lado, alguns hábitos podem reduzir a absorção de nutrientes, como consumir café ou chá imediatamente após refeições ricas em ferro vegetal.

O que a ciência recente está mostrando

O interesse científico pela biodisponibilidade dos micronutrientes cresceu significativamente nos últimos anos.

Uma revisão publicada em novembro de 2025 na revista Frontiers in Nutrition, liderada por James D. Richards, analisou fatores que influenciam a absorção de vitaminas e minerais. O trabalho destacou que a eficácia de um nutriente não depende apenas da quantidade ingerida, mas também das condições necessárias para sua absorção e utilização pelo organismo.

Essa é uma das razões pelas quais duas pessoas podem consumir exatamente o mesmo suplemento e obter resultados diferentes.

O segredo não está apenas na cápsula

Tomar vitaminas em jejum não significa automaticamente que elas serão desperdiçadas. No entanto, dependendo do tipo de suplemento, esse hábito pode reduzir o aproveitamento de alguns nutrientes importantes.

A principal lição da farmacocinética nutricional é simples: não basta ingerir vitaminas, é preciso criar as condições adequadas para que elas sejam absorvidas.

Em muitos casos, uma refeição equilibrada contendo proteínas, fibras e gorduras saudáveis pode fazer mais pela absorção dos nutrientes do que simplesmente aumentar a dose do suplemento.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn