Para milhões de pessoas, o café é praticamente a primeira tarefa do dia. Antes mesmo de tomar banho, abrir as cortinas ou preparar o café da manhã, a cafeteira já está funcionando. A bebida parece indispensável para espantar o sono e dar energia para começar a rotina.
No entanto, a ciência da cronofarmacologia, área que estuda como o horário interfere nos efeitos das substâncias no organismo, sugere que esse hábito pode não ser a melhor estratégia. Dependendo do momento em que a cafeína é consumida, ela pode interferir em mecanismos naturais de alerta que o próprio corpo já está ativando ao despertar.
O resultado pode ser uma sensação de energia temporária seguida por maior dependência da cafeína ao longo do dia.
Seu corpo já possui um despertador biológico
Ao acordar, o organismo passa por uma mudança hormonal conhecida como Resposta de Despertar do Cortisol.
O cortisol é frequentemente chamado de hormônio do estresse, mas ele também exerce funções essenciais para a regulação do estado de alerta, do metabolismo e da disposição física e mental.
Uma revisão publicada em 24 de abril de 2025 na revista Brain and Neuroscience Advances, liderada por Clara Velazquez Sanchez, analisou as evidências mais recentes sobre esse fenômeno. Os pesquisadores destacaram que os níveis de cortisol aumentam naturalmente após o despertar, ajudando o organismo a sair do estado de sono e entrar em estado de vigília.
Em outras palavras, nas primeiras horas da manhã, seu corpo já está produzindo um estímulo natural para mantê-lo acordado.
Onde a cafeína entra nessa história
A cafeína não fornece energia diretamente. Seu principal mecanismo é bloquear os receptores de adenosina, uma substância que se acumula ao longo do dia e contribui para a sensação de sono.
Quando a cafeína ocupa esses receptores, o cérebro interpreta que há menos necessidade de descanso, aumentando a sensação de alerta.
O problema é que, logo após acordar, a pressão do sono costuma estar relativamente baixa, enquanto o cortisol se encontra em elevação natural. Isso significa que muitas pessoas estão adicionando um estimulante justamente quando o organismo já está promovendo o despertar por conta própria.
O possível efeito rebote ao longo do dia
Quando a cafeína é consumida muito cedo, alguns especialistas sugerem que parte do seu potencial estimulante pode ser desperdiçado durante um período em que o estado de alerta já está elevado naturalmente.
Além disso, conforme os níveis de cafeína diminuem horas depois, algumas pessoas relatam queda de energia, sonolência e maior desejo por novas doses da bebida.
Esse fenômeno ajuda a explicar por que certos indivíduos passam o restante do dia recorrendo a várias xícaras de café para manter a disposição.
O que a cronofarmacologia vem descobrindo
O interesse científico pelo horário ideal para consumir cafeína tem crescido nos últimos anos.
Um estudo publicado em fevereiro de 2025 na revista Chronobiology International, liderado por Yakup Köse, investigou como o horário do consumo de café influencia o desempenho físico e cognitivo. Os resultados mostraram que os efeitos da cafeína variam conforme o momento do dia e as características individuais do ritmo biológico de cada pessoa.
Essas descobertas reforçam a ideia de que não importa apenas quanto café uma pessoa consome, mas também quando ele é consumido.
Então qual seria o melhor horário?
Embora não exista uma regra universal, muitos especialistas sugerem esperar entre 60 e 120 minutos após acordar antes de consumir a primeira dose de cafeína.
Esse intervalo permite que o pico natural de cortisol exerça seu papel fisiológico antes da entrada de um estimulante externo.
Isso não significa abandonar o café da manhã acompanhado de café para sempre. O ponto principal é entender que o relógio biológico influencia diretamente a forma como a cafeína atua no organismo.
Às vezes, uma simples mudança de horário pode fazer mais diferença para a disposição diária do que aumentar a quantidade de café consumida.

