Diamantes caem do céu nestes planetas e a ciência explica por quê 

Metano pode virar diamante sob pressão extrema. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
Metano pode virar diamante sob pressão extrema. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Diamantes estão entre os materiais mais valiosos da Terra. Por isso, a ideia de vê-los cair do céu parece pertencer ao universo da fantasia. No entanto, para alguns cientistas, esse cenário pode ser uma realidade em partes distantes do Sistema Solar.

Pesquisas sobre os gigantes gelados Netuno e Urano indicam que as condições extremas presentes em suas profundezas podem transformar um gás comum em cristais de diamante. O mais surpreendente é que experimentos de laboratório já conseguiram reproduzir etapas importantes desse processo, aproximando a ciência de uma das hipóteses mais fascinantes da astronomia moderna.

O gás comum que pode virar pedra preciosa

Tudo começa com o metano (CH₄), um dos gases mais abundantes nas atmosferas de Netuno e Urano.

Cada molécula de metano é formada por um átomo de carbono ligado a quatro átomos de hidrogênio. Em condições normais, essa estrutura permanece estável. Porém, em ambientes extremos, a história muda completamente.

Os cientistas acreditam que tempestades elétricas gigantescas e outras fontes de energia presentes nas camadas superiores desses planetas podem quebrar as moléculas de metano, liberando átomos de carbono.

À medida que esse carbono afunda em direção ao interior do planeta, encontra pressões e temperaturas cada vez mais elevadas. Em determinadas profundidades, os átomos começam a se reorganizar, formando estruturas mais compactas.

Primeiro podem surgir formas semelhantes à grafite. Com o aumento da pressão, o carbono passa por novas transformações até adquirir a estrutura cristalina característica dos diamantes.

Uma jornada rumo ao centro do planeta

Diferentemente dos diamantes encontrados na Terra, que se formam lentamente em regiões profundas do manto terrestre, os diamantes de Netuno e Urano fariam parte de um ciclo contínuo.

Os modelos planetários sugerem que pequenos cristais seriam produzidos em grandes quantidades e começariam a afundar lentamente através das camadas internas do planeta.

Esse processo ficou conhecido como chuva de diamantes porque os cristais precipitam em direção ao interior do astro, de forma semelhante à queda de chuva em nosso planeta.

Ao longo desse trajeto, os diamantes podem crescer ainda mais, acumulando material antes de alcançarem regiões próximas ao núcleo.

Teoria encontra evidências experimentais

Por muito tempo, a chuva de diamantes foi apenas uma hipótese baseada em modelos físicos e químicos sobre o interior dos gigantes gelados. Isso começou a mudar quando cientistas passaram a reproduzir em laboratório as condições extremas encontradas nas profundezas desses planetas.

Um dos trabalhos mais importantes foi publicado na revista Nature Astronomy em agosto de 2017, liderado por Dominik Kraus. Os pesquisadores utilizaram técnicas de compressão dinâmica para submeter amostras de poliestireno, um material rico em carbono e hidrogênio, a pressões próximas de 150 gigapascais e temperaturas em torno de 5.000 Kelvin, condições semelhantes às existentes milhares de quilômetros abaixo das superfícies de Netuno e Urano.

Os experimentos forneceram evidências da separação entre carbono e hidrogênio sob essas condições extremas. Esse processo é considerado um passo fundamental para a formação de diamantes no interior dos gigantes gelados, já que o carbono liberado pode se reorganizar em estruturas cristalinas extremamente compactas.

Os resultados também sugeriram que a formação e a precipitação de diamantes podem ocorrer em pressões muito mais elevadas do que se imaginava anteriormente. Além de ajudar a explicar a possível chuva de diamantes nesses planetas, a descoberta trouxe informações valiosas sobre a estrutura interna de Urano, Netuno e até mesmo de exoplanetas ricos em carbono.

Muito mais do que uma curiosidade espacial

A chuva de diamantes não interessa apenas por seu aspecto exótico.

Compreender o comportamento do carbono sob pressões extremas ajuda os pesquisadores a responder questões importantes sobre:

• A estrutura interna dos gigantes gelados.

• A evolução térmica dos planetas.

• O transporte de calor em camadas profundas.

• A formação de exoplanetas semelhantes a Netuno.

• A distribuição de elementos químicos no interior dos mundos gigantes.

Essas informações permitem construir modelos mais precisos sobre como os planetas se formam e evoluem ao longo de bilhões de anos.

Um dos cenários mais impressionantes já imaginados pela ciência

Enquanto os diamantes são raros e valiosos na Terra, eles podem ser relativamente comuns em alguns cantos do Universo.

A combinação de metano, calor extremo e pressões gigantescas cria condições capazes de transformar um gás simples em uma das estruturas cristalinas mais resistentes conhecidas pela ciência.

Se as previsões dos modelos estiverem corretas, Netuno e Urano escondem em suas profundezas um fenômeno que parece impossível à primeira vista: céus que produzem diamantes e os fazem cair rumo ao centro do planeta.

É mais uma demonstração de que o Universo continua sendo muito mais surpreendente do que nossa imaginação costuma alcançar.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes