O ponto mais frio de todo o universo conhecido não fica em Plutão ou em uma galáxia distante

Plutão e seu deserto gélido revelam os mistérios do espaço profundo. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
Plutão e seu deserto gélido revelam os mistérios do espaço profundo. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Quando pensamos nos lugares mais frios do universo, é natural imaginar planetas distantes, nuvens interestelares ou regiões escuras do espaço profundo. Afinal, o vácuo cósmico apresenta temperaturas extremamente baixas, próximas de −270,4 °C. No entanto, existe uma surpresa fascinante: o local mais frio já criado e medido não está em uma galáxia remota. Ele foi produzido por cientistas aqui mesmo na Terra.

Esse feito impressionante nasceu da busca por compreender os limites da matéria e as leis fundamentais da física. Para isso, pesquisadores desenvolveram técnicas capazes de levar átomos a temperaturas tão baixas que elas se aproximam do misterioso zero absoluto, considerado o limite inferior da temperatura no universo.

O que acontece quando o frio chega ao limite extremo?

A temperatura está diretamente ligada ao movimento das partículas. Quanto mais quente um objeto, mais agitadas ficam suas moléculas e átomos. Por outro lado, quando a temperatura diminui, essa movimentação também reduz.

O chamado zero absoluto, equivalente a −273,15 °C, representa o estado em que a agitação térmica atinge seu menor valor possível. Na prática, os cientistas entendem que alcançar exatamente esse ponto é impossível, mas é possível chegar incrivelmente perto dele.

Para ter uma ideia, algumas experiências modernas conseguem atingir temperaturas medidas em bilionésimos de grau acima do zero absoluto, algo muito mais frio do que qualquer ambiente natural conhecido no espaço.

Lasers que esfriam em vez de aquecer

Cientistas criam na Terra o ponto mais frio de todo o universo. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
Cientistas criam na Terra o ponto mais frio de todo o universo. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Pode parecer contraditório, mas um dos segredos para atingir essas temperaturas extremas está no uso de lasers.

Em laboratórios especializados, feixes de luz são direcionados para grupos de átomos em movimento. Quando ajustados com extrema precisão, esses lasers atuam como uma espécie de freio microscópico, reduzindo gradualmente a velocidade dos átomos.

À medida que eles desaceleram, sua energia diminui e a temperatura cai drasticamente. Em seguida, campos magnéticos e armadilhas ópticas mantêm essas partículas confinadas para estudos detalhados.

Esse processo permitiu o surgimento de estados exóticos da matéria, como o Condensado de Bose-Einstein, no qual milhares ou milhões de átomos passam a se comportar como uma única entidade quântica.

O laboratório espacial que produz frio recordista

Além dos laboratórios terrestres, a busca por temperaturas extremas também chegou ao espaço. A bordo da Estação Espacial Internacional, a NASA opera o Cold Atom Lab, uma instalação projetada para criar nuvens de átomos ultrafrios em condições de microgravidade.

Nesse ambiente, os cientistas conseguem observar fenômenos quânticos por períodos mais longos do que seria possível na Terra, ampliando as possibilidades de pesquisa em física fundamental e tecnologias futuras.

Por que criar o lugar mais frio do universo?

A resposta vai muito além da curiosidade científica.

Ao estudar a matéria em temperaturas extremas, os pesquisadores podem investigar fenômenos que normalmente permanecem invisíveis. Essas pesquisas ajudam no desenvolvimento de:

  • Sensores ultrassensíveis
  • Relógios atômicos mais precisos
  • Tecnologias quânticas
  • Sistemas avançados de navegação
  • Novas ferramentas para explorar o universo

Em maio de 2026, um estudo publicado na revista científica Scientific Reports, liderado por Kai Frye-Arndt, apresentou avanços na criação de armadilhas ópticas para gases quânticos ultrafrios, uma tecnologia essencial para experimentos que operam em temperaturas próximas do zero absoluto. O trabalho foi publicado em 14 de maio de 2026 e contribui para o aperfeiçoamento das condições necessárias para pesquisas de física quântica de alta precisão.

O universo guarda um paradoxo congelante

Curiosamente, embora o espaço seja extremamente frio, ele não detém o recorde absoluto. Os ambientes artificiais criados por cientistas conseguem atingir temperaturas ainda menores do que aquelas encontradas naturalmente no cosmos.

Isso significa que o lugar mais frio conhecido não está escondido entre estrelas distantes nem em um planeta congelado. Ele surgiu graças à engenhosidade humana, dentro de laboratórios que exploram os limites da natureza.

E talvez essa seja a parte mais impressionante de toda a história: em nossa tentativa de compreender o universo, acabamos criando condições mais extremas do que muitas das encontradas nele.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes