Árvores podem reduzir o calor urbano em até 18°C, revela estudo

Árvores certas podem reduzir o calor urbano em até 18°C, mostra estudo. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

À medida que as ondas de calor se tornam mais frequentes e intensas, muitas cidades apostam no plantio de árvores como uma das principais estratégias para melhorar a qualidade de vida da população. No entanto, uma nova pesquisa indica que o sucesso dessa solução depende de um fator frequentemente ignorado: o tipo e a disposição da vegetação.

O estudo comparou ambientes urbanos em diferentes regiões do mundo e concluiu que apenas aumentar a quantidade de árvores nem sempre garante maior conforto térmico. Em alguns casos, um planejamento inadequado pode até reduzir parte dos benefícios esperados. Entre as principais descobertas estão:

  • Árvores podem diminuir o calor percebido em mais de 18°C em determinadas condições;
  • A combinação de árvores, arbustos e vegetação rasteira costuma gerar melhores resultados;
  • Umidade e circulação do ar influenciam diretamente a eficácia do resfriamento;
  • Estratégias eficientes variam conforme o clima local.

O calor das cidades vai além da temperatura do ar

Quando pensamos em calor urbano, geralmente imaginamos apenas a temperatura registrada pelos termômetros. Entretanto, a sensação térmica é influenciada por diversos fatores, incluindo radiação solar, superfícies aquecidas, umidade e ventilação.

Nas cidades, materiais como concreto, asfalto e vidro absorvem grandes quantidades de energia ao longo do dia e liberam esse calor gradualmente. Esse fenômeno, conhecido como ilha de calor urbana, faz com que áreas densamente construídas permaneçam quentes mesmo após o pôr do sol.

Por isso, a presença de sombra e vegetação desempenha um papel fundamental na redução do desconforto térmico.

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Quando diferentes plantas trabalham juntas

Os pesquisadores analisaram ambientes urbanos em Melbourne, Munique e Hong Kong, cidades com características climáticas bastante distintas. Em vez de utilizar apenas simulações computacionais, a equipe realizou medições diretamente em ruas, parques e áreas verdes.

Os resultados mostraram que os melhores desempenhos geralmente ocorreram em locais com vegetação em camadas, formada por árvores, arbustos e cobertura vegetal rasteira.

Esse conjunto cria múltiplas barreiras contra a radiação solar, reduzindo o aquecimento das superfícies e melhorando o microclima urbano. Em algumas áreas, a redução do estresse térmico foi expressiva, tornando os espaços muito mais confortáveis para os pedestres.

Mais verde nem sempre significa mais conforto

Apesar dos benefícios, o estudo também revelou que o excesso de vegetação pode gerar efeitos indesejados dependendo do ambiente.

Em regiões muito úmidas, por exemplo, a vegetação densa pode aumentar a quantidade de vapor d’água no ar, intensificando a sensação de abafamento. Já em ruas estreitas, plantas mal posicionadas podem dificultar a circulação dos ventos e reter calor próximo ao solo.

Esses resultados mostram que não existe uma fórmula universal para todas as cidades. O planejamento urbano precisa considerar fatores como clima, largura das vias, orientação solar e fluxo de ar. Mais do que plantar árvores, o desafio do futuro será criar infraestruturas verdes inteligentes, capazes de equilibrar sombra, ventilação e conforto térmico. Em um mundo cada vez mais quente, a escolha das espécies e do desenho dos espaços verdes pode fazer toda a diferença para a saúde e o bem-estar da população.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes