O gelo mais antigo da Antártida acaba de revelar uma descoberta que pode mudar a forma como entendemos a história climática da Terra. Cientistas identificaram que, há cerca de 3 milhões de anos, o planeta passou por um forte resfriamento global, mas os níveis de dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4) mudaram muito menos do que se imaginava.
O achado, publicado na revista científica Nature, sugere que os gases de efeito estufa não foram os únicos responsáveis pelas grandes transformações climáticas daquele período. Outros fatores, como o crescimento das calotas polares, mudanças na circulação oceânica e a capacidade da Terra de refletir luz solar, também tiveram papel decisivo.
Além disso, o estudo amplia o registro climático mais antigo já obtido a partir de gelo preservado na Antártida, oferecendo uma nova janela para o passado do planeta.
O que o gelo antigo conseguiu revelar?
Os pesquisadores analisaram amostras de gelo da região de Allan Hills, na Antártida Oriental, uma área conhecida por preservar fragmentos extremamente antigos da história climática terrestre.
Dentro desse gelo, pequenas bolhas de ar funcionam como verdadeiras cápsulas do tempo. Elas armazenam gases atmosféricos e ajudam os cientistas a reconstruir como era o clima em diferentes épocas. A pesquisa mostrou:
- Resfriamento médio dos oceanos entre 2°C e 2,5°C;
- Níveis de CO2 geralmente abaixo de 300 partes por milhão;
- Concentração de metano relativamente estável por milhões de anos;
- Mudanças climáticas maiores do que a variação dos gases sugeria.
Esses dados ajudam a explicar por que a Terra era mais quente no passado e como ocorreu a transição para um planeta mais frio.
O oceano esfriou antes do esperado
Um dos estudos utilizou gases nobres presos nas bolhas de ar para medir a temperatura média dos oceanos antigos.

Os resultados mostraram que boa parte do resfriamento aconteceu logo no início desse período, entre 3 e 2 milhões de anos atrás, coincidindo com a expansão das grandes calotas polares no Hemisfério Norte.
Curiosamente, as águas profundas e a superfície do oceano não esfriaram no mesmo ritmo. Isso indica que alterações na circulação oceânica e no transporte de calor podem ter sido fundamentais para a mudança climática global.
Esse detalhe reforça que o sistema climático terrestre é muito mais complexo do que apenas a variação de gases atmosféricos.
Gases de efeito estufa mudaram pouco
Outro ponto surpreendente foi a estabilidade dos níveis de CO2 e metano ao longo desse longo período.
Os registros indicam que o dióxido de carbono ficou em torno de 250 a 300 partes por milhão, com uma pequena redução gradual. O metano permaneceu próximo de 500 partes por bilhão.
Hoje, no entanto, a realidade é muito diferente. Em 2025, o CO2 atmosférico chegou a cerca de 425 partes por milhão, enquanto o metano ultrapassou 1.900 partes por bilhão.
Essa comparação mostra como os níveis atuais são muito mais elevados do que em grande parte da história recente da Terra.
O clima depende de muito mais do que CO2
Os resultados sugerem que o resfriamento global de milhões de anos atrás não pode ser explicado apenas pela queda dos gases de efeito estufa. Fatores que influenciaram profundamente o equilíbrio climático:
- Expansão das calotas de gelo;
- Mudanças na vegetação;
- Alteração da refletividade da superfície terrestre;
- Transformações na circulação oceânica.
Agora, cientistas buscam gelo ainda mais antigo, com até 6 milhões de anos, para entender ainda melhor como o planeta respondeu às mudanças naturais do passado e como isso pode ajudar a prever o futuro climático da Terra.

