Fenômeno raro mostra árvores emitindo luz elétrica em meio a tempestades

Em laboratório escuro, o brilho elétrico aparece; ao ar livre, quase invisível (Imagem: William Brune / Penn State)
Em laboratório escuro, o brilho elétrico aparece; ao ar livre, quase invisível (Imagem: William Brune / Penn State)

Durante uma tempestade, não são apenas os raios que carregam energia no céu. Agora, cientistas conseguiram comprovar que as próprias árvores também podem emitir pequenos brilhos elétricos invisíveis a olho nu, criando um fenômeno surpreendente que pode ter impacto direto na qualidade do ar.

A descoberta confirmou pela primeira vez, em ambiente natural, a chamada descarga corona, um processo elétrico que acontece nas pontas das folhas quando há forte atividade atmosférica. O estudo foi publicado na revista científica Geophysical Research Letters e reforça uma hipótese discutida há mais de 70 anos.

Além do efeito visual curioso, os pesquisadores acreditam que esse fenômeno pode ajudar na formação de substâncias que contribuem para a remoção de poluentes da atmosfera.

O que acontece quando as árvores “brilham”?

A descarga corona ocorre quando nuvens de tempestade acumulam grandes cargas elétricas negativas. Isso faz com que cargas positivas sejam atraídas do solo e se concentrem nos pontos mais altos das árvores, especialmente nas extremidades das folhas.

Nessas regiões, o campo elétrico se torna intenso o suficiente para produzir pequenos pulsos luminosos e emissões na faixa ultravioleta. Esse processo pode gerar:

  • Brilho elétrico quase invisível;
  • Emissão de luz ultravioleta;
  • Formação de compostos oxidantes;
  • Quebra de moléculas presentes no ar;
  • Participação na remoção de poluentes atmosféricos.

Por isso, o fenômeno pode ter um papel muito maior do que apenas um efeito curioso da natureza.

A caçada científica começou dentro de uma minivan

Sinais UV de descargas corona foram registrados em árvores durante tempestade intensa de 2024 (Imagem: PJ McFarland, WH Brune, DO Miller, JM Jenkins, Geophysical Research Letters, CC BY-SA 4.0)
Sinais UV de descargas corona foram registrados em árvores durante tempestade intensa de 2024 (Imagem: PJ McFarland, WH Brune, DO Miller, JM Jenkins, Geophysical Research Letters, CC BY-SA 4.0)

Para investigar esse mistério, pesquisadores da Penn State viajaram pela costa leste dos Estados Unidos em uma minivan adaptada com instrumentos meteorológicos especiais instalados no teto.

O objetivo era encontrar tempestades fortes o suficiente para observar o fenômeno diretamente nas copas das árvores. Após semanas de tentativas frustradas na Flórida, a confirmação finalmente aconteceu na Carolina do Norte.

Durante uma tempestade intensa, os cientistas detectaram centenas de eventos elétricos em árvores como liquidâmbar e pinheiros, registrando pela primeira vez a ocorrência natural da descarga corona fora do laboratório.

Como isso pode ajudar a limpar o ar

Um dos aspectos mais importantes da descoberta envolve a produção de hidroxila, uma molécula considerada essencial para a limpeza da atmosfera.

Ela atua como um dos principais agentes oxidantes do ar, ajudando a quebrar substâncias poluentes e gases como o metano, um dos mais relevantes no aquecimento global.

Além disso, a hidroxila também reage com compostos liberados naturalmente pelas próprias árvores, influenciando diretamente a química das florestas e da atmosfera ao redor.

Isso significa que as copas das árvores podem desempenhar um papel ainda mais ativo no equilíbrio ambiental do que se imaginava.

O fenômeno oculto nas árvores que pode influenciar todo o ambiente

Os cientistas ainda investigam se essas descargas elétricas provocam pequenos danos nas folhas ou se, ao longo de milhões de anos, as árvores desenvolveram formas naturais de lidar com esse processo.

Além disso, existe a hipótese de que esse mecanismo traga vantagens para os próprios ecossistemas florestais, principalmente por sua possível contribuição na melhoria da qualidade do ar.

Essa descoberta reforça que até mesmo eventos comuns, como uma tempestade, podem esconder processos naturais surpreendentes e revela que as árvores talvez tenham um papel ainda mais importante no equilíbrio ambiental do planeta.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes